As Instruções do Rei Cormac

“Oh, Cormac, neto de Conn,” disse Carbery, “quais são os deveres de um chefe e de uma cervejaria?”

“Não é difícil dizer,” disse Cormac

Bom comportamento rodeia um bom chefe

Luz para lampiões

Se empenhar pela companhia

Uma organização adequada das cadeiras

Liberdade aos serventes,

Uma mão hábil ao servir

Serviço atento

Música em moderação

Curta contagem de historias

Uma expressão alegre

Boas-vindas aos convidados

Silencio durante recitais

Coros harmoniosos”

 

“Oh Cormac, neto de Conn,” disse Carbery, “Quais eram teus hábitos quando rapaz?”

Não e difícil dizer,” disse Cormac

Eu fui um ouvinte nas florestas

Eu fui um observador de estrelas

Eu fui cego onde segredos eram envolvidos

Eu fui silencioso em um ermo

Eu fui loquaz entre muitos

Eu fui suave no salão do hidromel

Eu fui austero em batalha

Eu fui suave para os aliados

Eu fui um médico do doente

Eu fui fraco para os fracos

Eu fui forte para os poderosos

Eu não fui intimo para que não fosse um fardo

Eu não fui arrogante embora fosse sábio

Eu não fui dado a promessas embora eu fosse forte

Eu não fui venturoso embora fosse ágil

Eu não zombei dos velhos embora eu fosse jovem

Eu não me gabei embora eu fosse um bom líder

Eu não falaria de alguém em sua ausência

Eu não reprovaria, mas louvaria

Eu não pediria, mas daria

Pois é através desses hábitos que o jovem se torna velho e lidera guerreiros”

 

“Oh, Cormac, neto de Conn,” disse Carbery, “Qual foi a pior coisa que já viste?”

Não é difícil dizer,” disse Cormac

“As faces do inimigo em batalha”

 

“Oh Cormac, neto de Conn,” disse Carbery, “Qual a coisa mais doce que ouviste?”

Não é difícil dizer”, disse Cormac

“O grito do triunfo após a vitória,

Louvores após o trabalho,

O convite de uma dama para seu travesseiro.”

 

“Oh Cormac, neto de Conn,” disse Carbery, “Qual a pior coisa para o corpo do homem?”

Não é difícil dizer,” disse Cormac,

Se sentar por muito tempo,

Se deitar por muito tempo,

Se esforçar além de suas forças,

Correr demais,

Saltar demais,

Quedas frequentes,

Dormir com uma perna sobre a amurada da cama,

Olhar para brasas acesas,

Cera,

Encolerizar-se,

Cerveja nova, carne de vaca,

Coalhada,

Comida seca,

Agua parada,

Se levantar cedo demais,

Frio,

Sol,

Fome,

Beber demais,

Comer demais,

Dormir demais,

Se entristecer demais,

Dor

Correr para um cume,

Gritar contra o vento,

Se secar ao lado do fogo,

Orvalho de verão,

Orvalho de inverno,

Inspirar cinzas,

Nadar de estomago cheio,

Dormir de costas,

Brincadeiras imprudentes.”

 

Oh, Cormac, neto de Conn,” disse Carbery, “Quais são as piores defesas e argumentos?”

“Não é difícil dizer,” disse Cormac

Lutar contra o conhecimento,

Afirmar sem provas,

Tomar refúgio na má linguagem,

Uma entonação difícil,

Um discurso emudecedor,

Fendas nos cabelos,

Provas incertas,

Desprezar livros,

Se virar contra a tradição,

Mudar a alegação de alguém,

Incitar a multidão,

Soprar sua própria trombeta,

Gritar acima da voz de alguém”

 

Oh Cormac, neto de Conn,” disse Carbery, “Quem é o pior que tens por comparação?”

Não é difícil dizer,” disse Cormac

Um homem com a insolência de um satirista,

Com a vergonha de uma escrava,

Com a desatenção de um cão,

Com a consciência de um mastim,

Com a mão de um ladrão,

Com a força de um touro,

Com a dignidade de um juiz,

Com a engenhosa sabedoria afiada,

Com a fala de um homem imponente,

Com a memória de um historiador,

Com o comportamento de um abade,

Com a palavra de um ladrão de cavalos,

E ele, sábio, mentiroso, grisalho, violento, ofensivo, tagarela, quando diz “o assunto está esclarecido, eu juro, você deve jurar.”

 

Oh Cormac, neto de Conn,” filho de Conn, disse Carbery,”Eu desejo saber como devo me comportar entre os sábios e tolos, entre amigos e estranhos, entre velhos e jovens, entre inocentes e terríveis.”

Não é difícil dizer,” disse Cormac

Não seja tão sábio, não seja tão tolo,

Não seja tão vaidoso, não seja tão tímido,

Não seja tão arrogante, não seja tão humilde,

Não seja tão loquaz, nem tão silencioso,

Não seja tão duro, nem tão fraco,

Se você for muito sábio, eles vão esperar muito de você

Se você for muito tolo, você será enganado

Se você for muito vaidoso, será visto como irritante

Se você for muito humilde, você estará sem honra

Se você for muito loquaz, você não terá muita atenção

Se você for muito silencioso, você não será estimado

Se você for muito duro, será quebrado

Se você for muito fraco, será esmagado.”

 

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A segunda batalha de Magh Tuiredh

A segunda batalha de Magh Tuiredh

Cath Dédenach Maige Tuired/Cath Tánaiste Maige Tuired/Cath Maighe Tuireadh Thúaidh

traduzida por Elizabeth A. Grey; versão em português por Wallace Cunobelinos

 

Os Tuatha Dé Danonn estavam nas ilhas ao norte do mundo, aprendendo o conhecimento, a magia, o druidismo, a feitiçaria e a astúcia até eles ultrapassarem os sábios das artes do paganismo.

 

Eles estavam aprendendo o conhecimento, a ciência e as artes diabólicas em quatro cidades: Falias, Gorias, Murias e Findias.

 

De Falias foi trazida a Pedra de Fál que está em Tara. Ela costumava berrar sob cada rei que tomasse o reino da Irlanda. 

 

De Gorias foi trazida a Lança que Lugh tinha. Nenhuma batalha jamais foi vencida contra ela ou contra aquele que a empunhava. 

 

De Findias foi trazida a Espada de Nuada. Quando ela era sacada de sua bainha mortal, ninguém jamais escapava dela, ela era irresistível. 

 

De Murias foi trazido o Caldeirão do Dagda. Nenhuma companhia jamais foi embora insatisfeita.

 

Existiam quatro feiticeiros nessas quatro cidades: Mór-fesae em Falias, Esras em Gorias, Uscias em Findias e Semias em Murias. Esses eram os quatro poetas com os quais os Tuatha Dé aprenderam o conhecimento e a ciência.

 

Os Tuatha Dé fizeram uma aliança com os fomorianos, e Balor, o neto de Nét, deu sua filha Ethne para Cian, o filho de Dian-cecht, e ela deu a luz à Lugh, o menino superdotado.

 

Os Tuath Dé vieram com uma grande frota para a Irlanda a fim de toma-la a força dos Fir Bolg. Eles queimaram suas barcas assim que chegaram ao distrito de Corcu-Belgatan que hoje é chamado de Connemara, para que eles não pensassem em recuar; e a fumaça e a névoa que saíram de seus barcos preencheram a terra e o ar da vizinhança. Por isso foi concebido que eles chegaram em nuvens de névoas.

 

A primeira batalha de Moytura foi travada entre eles e os Fir Bolg, que foram derrotados e uma centena de milhares deles foram mortos, incluindo seu rei Eochaid, o filho de Erc.

 

Naquela batalha, além disso, a mão de Nuada foi cortada por Sreng, o filho de Sengann, e então Dian-cecht, o médico, colocou nele uma mão de prata com os movimentos de uma mão comum, e Credne, o braseiro, ajudou o médico.

 

Os Tuath Dé Danonn perderam muitos homens na batalha, incluindo Edleo, o filho de Alla, Ernmas, Fiachra e Turill Bicreo.

 

Aqueles dos Fir Bolg que escaparam da batalha saíram em fuga até os fomorianos, e se estabeleceram em Arran, Islay, Mann e em Rathlin.

 

Surgiu uma contenda entre os Tuath Dé e suas mulheres sobre a soberania dos homens da Irlanda, pois após Nuada ter perdido sua mão, ele foi desqualificado para ser rei. Eles disseram que seria apropriado conceder o reinado à Bres, o filho de Elatha, em seu próprio filho adotivo, e que dar o reinado a ele faria uma aliança com os fomorianos, pois seu pai Elatha, o filho de Delbaeth, era o rei dos fomorianos.

 

Agora, a concepção de Bres aconteceu dessa forma: 

 

Eri, a filha de Delbaeth, uma mulher dos Tuath Dé, estava um dia olhando o mar e a terra na casa de Maeth Sceni, e contemplou o mar em perfeita calma como se o ele fosse uma tábua lisa. Quando estava lá, ela viu algo. Um barco de prata foi revelado a ela no mar. Ela julgou grande o seu tamanho, mas sua forma não tinha aparecido para ela, e o fluxo das ondas o levou para a terra. Ela então viu dentro dele um homem da mais bela forma, com um cabelo loiro que chegava até seus dois ombros. Ele usava um manto com fitas de linha dourada. Sua camisa tinha enfeites de linhas douradas. Em seu peito estava um broche de ouro, com o brilho de uma pedra preciosa nele. Ele tinha duas lanças de prata branca, com dois rebitados fustes lisos de bronze. Ele tinha cinco aros de ouro em seu pescoço e uma espada de cabo dourado com (ornamentos) de prata e rebites de ouro.

 

O homem disse para ela: “Essa é a hora que deitar com você será fácil?” “Não marquei um encontro com você, na verdade,” disse a mulher. “Venha para o (encontro)”, disse ele. 

 

Eles então se esticaram no chão, e a mulher chorou quando o homem se levantou.

 

“Por que você chora?” disse ele.

 

“Tenho dois motivos pelos quais eu devo lamentar,” disse a mulher. “Por me separar de ti, (por mais que) tenhamos nos encontrado. Os nobres jovens dos Tuatha Dea Danonn tem me suplicado em vão, mas meu desejo é por ti pela forma como me possuiu.”

 

“Sua ansiedade será tirada dessas duas coisas,” disse ele. Ele tirou seu anel dourado de seu dedo do meio e colocou em sua mão, e disse que ela não deveria se separar do anel, seja por venda ou por presenteio, exceto para aquele cujo dedo se encaixa. 

 

“Tenho outro pesar,” disse a mulher. “Eu não sei quem veio até mim.” 

 

“Não será ignorante por isso,” disse ele. “Elotha, o filho de Delbaeth, o rei dos fomorianos, veio até você, e com o nosso encontro você irá gerar um menino cujo nenhum nome deverá ser dado a ele que não seja Eochaid Bres, que significa Eochaid, o belo, pois cada coisa bela que é vista na Irlanda, seja planície, fortaleza, cerveja¹, tocha, mulher, homem ou cavalo será (comparada) a esse menino, de forma que os homens falarão dessas coisas como ‘é um Bres’.”

 

Depois disso, o homem voltou novamente pelo caminho que tinha vindo, a mulher foi para sua casa e lhe foi dada a famosa concepção.

 

Então ela deu à luz um menino que foi nomeado conforme Elotha tinha dito: Eochaid Bres. Após ter se passado uma semana após o encontro da mulher, o menino tinha quinze dias de crescimento, e manteve-se assim até o final de seus sete anos, quando ele tinha alcançado um crescimento de quatorze anos.

 

Devido àquela contenda que surgiu entre os Tuatha Dé, a soberania da Irlanda foi dada a esse menino, que deu sete reféns aos campeões da Irlanda, seus chefes, para recuperar a soberania se seus próprios (delitos) ocasionassem isso. Posteriormente, sua mãe lhe concedeu uma terra, e nessa terra ele teve uma fortaleza construída pelo Dagda: Dún Brese.

 

Quando Bres assumiu o reinado, os fomorianos Indech, o filho de De Domnann, Elatha, o filho de Delbaeth e Tethra, os três reis fomorianos, colocaram seu tributo sobre a Irlanda de forma que não saía uma fumaça do telhado na Irlanda que não estivesse sob o tributo deles. Os campeões também foram reduzidos a seu serviço: Ogma tinha que carregar um feixe de lenha e o Dagda era um construtor de rath², por isso ele entrincheirou o Rath Brese.

 

O Dagdae ficou cansado com o trabalho e sempre encontrava em sua casa um cego desocupado chamado Cridenbél, cuja boca saía de seu peito, e que achava que sua parte da comida era pequena, enquanto a do Dagdae era grande. Sobre isso, ele disse: “Ó Dagdae! Pela sua honra, me dê as três melhores partes de sua comida!” O Dagdae então costumava dar as melhores partes para ele todas as noites. Grande, no entanto, eram as partes do satirista, que era o tamanho de um bom porco, mas esses três pedaços eram um terço da comida do Dagda, e a saúde dele ficou do que isso.

 

Um dia, então, o Dagdae estava na trincheira e viu o Mac Óc vindo em direção a ele. “Isso é bom, ó Dagdae,” disse o Mac Óc. “Ainda assim,” disse o Dagdae. “O que te faz parecer tão doente?” disse o Mac Óc. “Tenho uma causa,” disse o Dagdae. “Todas as noites o satirista Cridenbél pede as três melhores partes da minha comida.” 

 

“Tenho um conselho para ti,” disse o Mac Óc. Ele colocou a mão em sua bolsa e tirou três coroas de ouro, e deu para ele.

 

“Coloque,” disse o Mac Óc, “essas três coroas nos três pedaços que você dará para Cridenbél no final do dia. Esses serão então os melhores pedaços no prato, e o ouro virará em sua barriga de forma que o matará, e o julgamento de Bres sobre isso estará incorreto. Os homens dirão ao rei: ‘O Dagda matou Cridenbél com uma erva mortal que ele lhe deu.’ Então o rei ordenará a sua morte, mas você dirá a ele: ‘O que você profere, ó rei dos guerreiros de Féne, não é a verdade de um príncipe, pois Cridenbél me observava enquanto eu estava trabalhando e costumava me dizer, ‘Dê-me, ó Dagdae, as três melhores partes de sua comida. Minha criadagem essa noite está ruim.’

 

‘Desse modo, eu então poderia ter morrido se não fosse os três xelins que encontrei hoje que me ajudou. Eu os coloquei em minha comida e dei para Cridenbél, pois o ouro é a melhor coisa que estava na minha frente. Consequentemente, o ouro dentro de Cridenbél foi a causa de sua morte’.”

 

“Está claro,” disse o rei. “Abram a barriga do satirista e vejam se encontram o ouro dentro dela. Se não for encontrado, você morrerá. No entanto se for encontrado, você viverá.”

 

Depois disso, eles cortaram a barriga do satirista e as três coroas de ouro foram encontradas em seu estômago, e assim o Dagdae foi salvo.

 

O Dagdae então foi para seu trabalho na manhã seguinte, o Mac Óc foi até ele e disse: “Logo você terminará o seu trabalho, e você não pedirá a recompensa até o gado da Irlanda ser levado até você, e daí você escolherá uma novilha com a juba negra, negro [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: uma palavra]³.” 

 

Depois disso, o Dagda terminou o seu trabalho e Bres lhe perguntou qual seria a recompensa para seu serviço. O Dagdae respondeu: “Eu te peço,” disse ele, “para reunir o gado da Irlanda em um único lugar.” O rei fez conforme o Dagdae disse, e ele escolheu a novilha que o Mac Óc tinha pedido para ele escolher. Aquilo pareceu fraqueza para Bres, pois ele pensou que o Dagda teria escolhido algo melhor.

 

Nuada estava em sua moléstia e Dian-cecht colocou nele uma mão de prata com os movimentos de uma mão comum. Isso pareceu um desastre para seu filho Miach, que foi até a mão que tinha sido cortada e disse “Articulação para4 articulação e tendão para tendão,” e curou Nuada em três vezes trinta dias e noites. Nas primeiras setenta e duas horas ele colocou a mão em seu lugar, e ela foi coberta com pele. Nas setenta e duas horas seguintes, ele colocou a mão em seu peito. Nas outras setenta e duas horas ele lançou um branco [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: uma palavra] de negros juncos que foram enegrecidos no fogo.

 

Aquela cura pareceu um desastre para Dian-cecht. Ele arremessou uma espada no topo da cabeça de seu filho que cortou a pele e a carne. O rapaz curou a ferida através de sua habilidade. Dian-cecht o feriu novamente e cortou a carne até chegar ao osso. O rapaz se curou da mesma forma. Ele o atingiu com um terceiro golpe que chegou até a membrana de seu cérebro. O rapaz se curou também se curou da mesma forma. Ele então o atingiu com um quarto golpe que cortou o seu cérebro, matando-o, e Dian-cecht disse que ele não poderia se curar daquele golpe.

 

Após isso, Miach foi enterrado por Dian-cecht, e trezentos e sessenta e cinco ervas, de acordo com o número de suas articulações e tendões, cresceram em seu túmulo. Airmed então abriu seu manto e separou aquelas ervas de acordo com suas propriedades, mas Dian-cecht foi até ela e confundiu as ervas para que ninguém conhecesse suas propriedades de cura a menos que o Espírito Santo ensinasse posteriormente, e Dian-cecht disse: “Se Miach não vive, Airmed deve permanecer.”

 

Bres então manteve a soberania conforme lhe foi conferida, mas os chefes dos Tuath Dé murmuravam grandemente contra ele, pois suas facas não eram besuntadas por ele e muitas vezes quando o visitavam, seus hálitos não cheiravam à cerveja. Além disso, eles não viam seus poetas, bardos, satiristas, harpistas, flautistas, sopradores de chifres, malabaristas ou os seus bobos divertindo-os na casa. Eles não iam a competições de seus atletas. Eles não viam seus campeões provando sua coragem para o rei, apenas Ogma, o filho de Etáin.

 

O dever que Ogma tinha era carregar lenha para a fortaleza. Ele costumava carregar todos os dias um feixe de lenha das ilhas Clew Bay, e por ele estar fraco pela falta de comida, o mar tirava dele dois terços de seu feixe.

 

Ele então só podia carregar um terço, e ainda assim, tinha que suprir a tropa todos os dias.

 

Nem o serviço nem o wergild4 das tribos continuaram, e os tesouros da tribo não foram entregues pelo ato de toda a tribo.

 

Um dia, o poeta dos Tuath Dé, Corpre o filho de Etaín, veio visitar a casa de Bres. Ele entrou em uma choupana estreita, escura e sombria, onde não havia fogo, móveis ou cama. Três bolinhos secos foram levados para ele em um prato pequeno. Pela manhã ele se levantou, e não estava satisfeito. Conforme atravessava o jardim, ele disse:

 

Sem comida prontamente em um prato,

Sem o leite da vaca com o qual o bezerro cresce,

Sem a habitação de um homem sob a (escuridão) da noite,

Sem o pagamento de uma companhia de contadores de histórias, deixe que essa seja a condição de Bres.

 

“Então não existe riqueza em Bres,” disse ele. E aquilo se tornou verdade, pois nada além da decadência estava nele a partir daquela hora, e essa foi a primeira sátira feita na Irlanda. 

 

Depois disso, os Tuath Dea foram juntos conversar com seu filho adotivo, Bres, o filho de Elatha, e exigiu suas garantias. Ele deu a eles a restituição do reino, ainda que não estivesse satisfeito com isso. Ele implorou para que permitissem permanecer até o fim de sete anos.

 

“Terás isso,” disse a assembleia, “mas você deverá vir na mesma garantia [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: uma palavra], cada fruta [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: uma palavra] para sua mão, tanto casa, terra, ouro, prata, gado, comida e liberdade dos alugueis e wergild até então.” “Vocês terão,” disse Bres, “conforme disseram.”

 

Ele pediu esse adiamento para que pudesse reunir os campeões dos Montes-Fadas, os fomorianos, para apoderar-se das tribos à força, munido de [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: três palavras]. Doloroso para ele seria sua expulsão de seu reinado.

 

Ele então foi até sua mãe e lhe perguntou qual era sua raça. “Estou certe disso,” disse ela, que foi até a colina onde tinha visto o barco de prata no mar. Ela então foi até a praia e lhe deu o anel que foi deixado com ela para ele, colocando em seu dedo do meio, e o anel se encaixou. Por conta disso, ela não entregou a ninguém, seja por venda ou presenteio; até aquele dia, o anel não cabia em ninguém.

 

Eles então foram adiante até chegarem à terra dos fomorianos. Eles chegaram a uma grande planície com muitas assembleias nela, e avançaram até a mais nobre dessas assembleias. Naquele lugar, perguntaram notícias para eles, eles que disseram que eram dos homens da Irlanda. Perguntaram a eles então se tinham cães de caça, pois naquela época, era um costume quando alguns homens iam até outra assembleia, serem desafiados para uma competição amigável. “Nós temos cães de caça,” disse Bres. Os cães então fizeram uma corrida e os dos Tuath Dé eram mais velozes que os dos fomorianos. Depois, perguntaram a eles se tinham cavalos para uma corrida de cavalos. Eles responderam, “Nós temos”, e seus cavalos foram mais velozes que os dos fomorianos.

 

Eles então perguntaram se algum deles era bom na espada. Nenhum foi encontrado, apenas Bres, que assim que colocou sua mão na espada, seu pai reconheceu o anel em seu dedo e perguntou quem era o herói. Sua mãe respondeu em seu favor e contou ao rei que era Bres, o filho dele. Ela então contou a ele toda a história conforme já contamos aqui.

 

Seu pai ficou triste, e disse: “Qual necessidade te tirou da terra que você governa?” Bres respondeu: “Nada me trouxe, salvo minha própria injustiça e arrogância. Eu os privei de suas joias, tesouros e de sua própria comida. Nem tributo nem wergild foram tirados deles até hoje.”

 

“Isso é ruim,” disse o pai. “Melhor é a prosperidade deles que o reinado. É melhor seus louvores do que suas maldições. Por que veio para cá?” disse seu pai. 

 

“Vim para pedir pelos seus campeões,” disse ele. “Para que eu possa tomar a terra à força.”

 

“Você não deverá tê-la por injustiça, se você não a teve por justiça,” disse o pai. 

 

“Pergunta: que conselho então você tem para mim?” disse Bres.

 

Após isso, ele o enviou até o campeão Balor, o neto de Net, o rei das Ilhas e para Indech, o filho de Déa Domnand, o rei dos fomorianos, e estes reuniram todas as forças do oeste de Lochlann para a Irlanda, e impuseram seu tributo e sua regra à força nos Tuath Dé, de forma que fizeram uma ponte de navios das Ilhas Estrangeiras até Erin.

 

Nunca veio até a Irlanda uma tropa tão terrível ou medonha como a tropa dos fomorianos. O homem da Cítia de Lochlann e o homem das Ilhas Ocidentais eram rivais naquela expedição.

 

Agora, quanto aos Tuath Dé, o que está abaixo se trata deles.

 

Depois de Bres, Nuada era novamente o soberano dos Tuath Dé. Naquela época, ele preparou para os Tuath Dé uma poderosa festa em Tara, e para cá vinha certo guerreiro cujo nome era SamildánachA. Existiam então dois porteiros em Tara: Gamal, o filho de Figal, e Camall, o filho de Riagall. Quando um desses dois estava lá, ele viu uma estranha companhia vindo em direção a ele, com um jovem nobre e formoso usando ornamentos reais na frente daquele bando.

 

Eles disseram ao porteiro para anunciar sua chegada em Tara. O porteiro perguntou: “Quem está ai?”

 

“Aqui está Lugh Lonnannsclech, o filho de Cian, o filho de Dian-cecht, e de Ethne, a filha de Balor. Ele é o filho adotivo de Tallan, a filha de Magmor, o rei da Espanha, e de Echaid, o Rude, filho de Duach.”

 

O porteiro perguntou ao Samildánach: “Que arte tu praticas? ” disse ele, “pois ninguém sem uma arte entra em Tara.”

 

“Me pergunte,” disse ele, “eu sou um carpinteiro.” O porteiro respondeu: “Não precisamos de ti. Nós já temos um carpinteiro: Luchtae, o filho de Luachaid.”

 

Ele disse, “Me pergunte, ó porteiro! Eu sou um ferreiro.” O porteiro lhe respondeu: “Já temos um ferreiro: Colum Cualléinech dos três novos processos.” 

 

Ele disse, “Me pergunte, eu sou um campeão.” O porteiro respondeu: “Não precisamos de ti. Já temos um campeão: Ogma, o filho de Ethliu.”

 

Ele disse novamente, “Me pergunte, eu sou um harpista.” “Não precisamos de ti. Já temos um harpista: Abhcán, o filho de Bicelmos, que os Homens dos três deuses (escolheram) nos montes encantados.”

 

Ele disse, “Me pergunte, eu sou um herói.” “O porteiro respondeu: “Não precisamos de ti. Já temos um herói: Bresal EcharlamB, o filho de Echaid Baethlam.”

 

Então ele disse: “Me pergunte, ó porteiro! Eu sou um poeta e um historiador.” “Não precisamos de ti. Já temos um poeta e um historiador: Em, o filho de Ethaman.” 

 

Ele disse: “Me pergunte: eu sou um feiticeiro.” “Não precisamos de ti. Já temos muitos feiticeiros. Muitos são nossos bruxos e nosso povo de poder.”

 

Ele disse, “Me pergunte: eu sou um médico.”

 

“Não precisamos de ti. Já temos um médico: Dian-cecht.” 

 

“Me pergunte,” disse ele, “eu sou um copeiro.” “Não precisamos de ti. Já temos copeiros: Delt, Drucht, Daithe, Taé, Talom, Trog, Glei, Glan e Glési.”

 

Ele disse, “Me pergunte: eu sou um bom braseiro.” “Não precisamos de ti. Já temos um braseiro: Credne Cerd.”

 

Ele disse novamente: “Pergunte ao rei,” disse ele, “se ele tem um único homem que (possui) todas essas artes, e se ele tiver, não entrarei em Tara.”

 

O porteiro então entrou no palácio e disse tudo ao rei. “Um guerreiro chegou ao jardim,” disse ele. “Seu nome é Samildánach e todas as artes que sua criadagem pratica, só ele possui, de forma que ele é o homem de cada e de todas as artes.”

 

O rei então disse para que os tabuleiros de xadrez6 de Tara fossem levados até ele, e o Samildánach venceu todas as partidas, e então fez o Cró de Lugh.C Mas se o xadrez foi inventado na (época) da guerra de Tróia, isso ainda não tinha chegado na Irlanda, pois a batalha de Moytura e a destruição de Tróia aconteceram na mesma época.D

 

Isso então foi relatado à Nuada. “Deixe-o entrar no jardim,” disse Nuada, “pois nunca um homem como ele entrou nessa fortaleza.”

 

Então o porteiro deixou Lugh passar, e ele entrou na fortaleza, sentando-se na cadeira do sábio, pois ele era um sábio em todas as artes.

 

Então Ogma arremessou pela casa uma laje7 que precisava do esforço de quatro vintenas de bois, e essa laje está do lado de fora de Tara. Esse foi um desafio para Lugh, que arremessou a laje de volta de forma que está agora no centro do palácio, e colocou a parte que tinha sido levada do lado da laje e a tornou completa.

 

“Toque harpa para nós,” disseram as tropas. O guerreiro então tocou a melodia do sono para as tropas e para o rei na primeira noite. Ele fez com que eles adormecessem daquela hora até a mesma hora do dia seguinte. Ele tocou a melodia do choro, e todos choraram e lamentaram. Ele tocou a melodia do riso, e todos eles estavam felizes e alegres. 

 

Quando Nuada viu os muitos poderes do guerreiro, considerou se o Samildánach poderia livrá-los da servidão que sofria dos fomorianos, e então foi realizado um conselho sobre o guerreiro. A decisão que Nuada tomou foi mudar a cadeira do guerreiro, mandando o Samildánach para a cadeira do rei, e o rei levantou-se diante dele até treze dias terem acabado.

 

Então, durante a manhã, ele encontrou-se com os dois irmãos Dagdae e Ogma em Grellach DollaidE, e seus irmãos Goibniu e Dian-cecht foram chamados até eles.

 

Eles conversaram secretamente durante um ano inteiro, e por isso Grellach Dollaid é chamada de Amrun dos Homens da Deusa.

 

Depois disso, os feiticeiros da Irlanda foram chamados até eles, junto com seus médicos, cocheiros, ferreiros, fazendeiros e brehons8, e conversaram secretamente.

 

Nuada então perguntou ao feiticeiro cujo nome era Mathgen, qual poder ele exercia. Ele respondeu que através de suas invenções, lançaria as montanhas da Irlanda nos fomorianos e rolaria seus cumes contra o chão. Ele declarou para eles que as doze montanhas chefes da terra de Erin apoiariam os Tuatha Dé Danonn no combate: Slieve League, Denna Ulad, as montanhas Mourne, Bri Ruri, Slieve Bloom, Sliab Snechtai, Slemish, Blai-sliab, Nemthenn, Sliab Maccu Belgodon, Segais e Cruachan Aigle.

 

Ele então perguntou ao copeiro o poder que ele exercia. Ele respondeu que traria os doze lagos chefes da Irlanda diante dos fomorianos, mas eles não encontrariam água nos lagos, por mais que uma poderosa sede se abatesse sobre eles. Estes eram os lagos: Derg-loch, Loch Luimnigh, Lough Corrib, Lough Ree, Lough Mask, Strangford Lough, Loch Laeig, Lough Neagh, Lough Foyle, Lough Gara, Lough Reagh e MárlochF. Eles iriam recorrer aos doze rios chefes da Irlanda: Bush, Boyne, Baa, Nem, Lee, Shannon, Moy, Sligo, Erne, Finn, Liffey e Suir, e todos eles seriam ocultados dos fomorianos, de forma que não encontrariam uma única gota dentro deles. Bebidas seriam fornecidas aos homens da Irlanda, mesmo que ficassem na batalha até o fim de sete anos.

 

Então o druida Figol, o filho de Mamos, disse: “Eu farei com que três chuvas de fogo derramem na face da tropa dos fomorianos, eu tomarei dois terços de sua coragem, bravura e força e prenderei a urina em seus corpos e nos corpos de seus cavalos. Cada expiração que os homens da Irlanda exalarem serão um aumento de coragem, bravura e força para eles. Apesar de ficarem na batalha até o final de sete anos, eles não ficarão cansados de forma alguma.”

 

O Dagdae disse: “Eu domino todos esses poderes que vocês se vangloriam.” “Você é o Dagdae (a boa mão)”, disseram todos, e daí em diante ele aderiu ao nome ‘Dagdae’.

 

Eles se separaram do conselho concordando em se encontrarem novamente dentro de três anos a partir daquele dia. 

 

Quando os (mantimentos) da batalha foram resolvidos, Lugh, Dagdae e Ogma foram para os três Deuses de Danu, e estes deram a Lugh o [lacuna: significado obscuro do texto/extensão: uma palavra] da batalha, e durante sete anos eles se preparavam para a batalha e faziam suas armas.

 

O Dagdae tinha uma casa em Glenn Etin, no norte.

 

O Dagdae tinha um encontro com uma mulher em Glenn Etin naquele dia próximo ao Samhain da batalha. O rio Unius de Connaught ruge ao sul de lá. Ele viu uma mulher em Unius em Corann se banhando, com um de seus dois pés em Alloch Echae, isto é, em Echumech, no sul da água, e o outro pé em Loscuinn, no norte da água. Nove tranças frouxas estavam em sua cabeça. O Dagdae conversou com ela e eles formaram uma união. ‘A Cama do Casal’ é o nome daquele lugar, daquele dia em diante. A mulher mencionada aqui é a Morrígan Lamia.

 

Ela então contou ao Dagda que os fomorianos desembarcariam em Magh Scetne e ela (chamaria) os homens de arte de Erin para encontra-la no Vau de Uinius, e ela iria até Scetne para destruir Indech, o filho de Dé Donann, o rei dos fomorianos, e despojá-lo do sangue de seu coração e os seus testículos9.G Ela posteriormente daria dois punhados daquele sangue para a tropa que estaria esperando-a no Vau de Uinius. ‘Vau da Destruição’ passaria ser o nome daquele local, por conta da destruição do rei. 

 

Aquilo então foi feito pelos artistas e eles cantaram feitiços sobre as tropas dos fomorianos.

 

Isso foi uma semana antes do Samhain, e cada um deles se separou do outro até todos os homens da Irlanda se encontrar na véspera do Samhain. Seis vezes trezentos era seu número, que são duas vezes trezentos em cada terça parte. 

 

Lugh então enviou o Dagda para espionar os fomorianos e atrasá-los até os homens da Irlanda vir para a batalha.

 

O Dagda foi até o acampamento dos fomorianos e pediu a eles uma trégua da batalha, e foi garantido como ele pediu. Os fomorianos prepararam um mingau para ele, para zombá-lo, pois grande era o seu amor por mingau. Eles encheram o caldeirão do rei de cinco punhos de profundidade, com quatro galões de leite fresco e a mesma quantidade de farinha e gordura. Cabras, ovelhas e porcos foram colocados para serem cozidos junto com o mingau. Eles derramaram para ele um buraco no chão e Indech disse que ele morreria se não comesse tudo; ele deveria comer sua parte para que não reprovasse os fomorianos com inospitalidade.

 

O Dagdae pegou sua colher, grande o suficiente para um homem e uma mulher se deitarem no meio dela e pegou partes de porco salgado e um quarto de banha de porco. 

 

O Dagdae disse: “Bom será se o caldo for igual ao cheiro”, e quando ele colocava a colher cheia em sua boca ele dizia: “Seus [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra] não o estraga, diz o velho homem.”

 

No final, ele colocou seu dedo curvado no fundo do buraco entre os cascalhos e a lama, e ficou sonolento após ter comido seu mingau. Maior que um caldeirão caseiro era sua barriga, de forma que os fomorianos riram dele. 

 

Ele então partiu até a praia de Eba, e não era fácil para o herói se mover devido ao tamanho de sua barriga. Sua aparência era indecente. Ele usava uma capa que chegava até seus dois cotovelos, uma túnica parda até suas grandes nádegas e calçava dois brogues10 de pele de cavalo com pelos. Uma forquilha [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra] com rodas, que levava o esforço de oito homens para carrega-la, deixava um rastro atrás dele que era fundo o suficiente para ser a fronteira de um distrito, e a partir disso, o lugar foi chamado de ‘A Trilha da Clava do Dagdae’. [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: algumas linhas]H

 

Os fomorianos então marcharam ate sua [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra] estavam em Scetne.

 

Os homens da Irlanda estavam em Magh Aurfolaigh, e as duas tropas estavam ameaçando começar a batalha. “Os homens da Irlanda se atrevem a oferecer-nos batalha,” disse Bres, o filho de Elier, para Indech, o filho de Dia Domnann. “Eu os darei sem demora,” disse Indech, “para que seus ossos sejam quebrados em partes pequenas a menos que paguem o tributo.”

 

Devido ao conhecimento de Lugh, os homens da Irlanda resolveram não deixá-lo ir para a batalha. Então seus nove filhos adotivos foram deixados para protegê-lo: Tollus-dam, Ech-dam, Eru, o branco Rechtaid, Fosad, Fedlimid, Ibor, Scibar e Minn. Eles temiam uma morte prematura do herói devido à multidão de suas artes, e por isso, eles não o deixaram ir para a luta.

 

Os chefes dos Tuath Dé Danann se reuniram em volta de Lugh. Ele perguntou ao seu ferreiro Goibniu o poder que ele exerceria em batalha.

 

“Não é difícil dizer,” respondeu ele. “Apesar dos homens da Irlanda ficar na batalha até o final de sete anos, para cada lança que se separar de seu fuste ou para cada espada que quebrar lá, eu providenciarei uma nova arma em seu lugar. Nenhuma ponta de lança que minhas mãos forjar,” disse ele, “errará o alvo. Nenhuma pele que ela perfurar provará da vida posteriormente. Isso não foi feito por Dolb, o ferreiro dos fomorianos. Eu estou agora [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra] para a batalha de Magh Tuired.”

 

“E tu, ó Dian-cecht,” disse Lugh, “que poder você exercerá, de fato?”

 

“Não é difícil dizer,” disse ele. “Cada homem que for ferido lá, a menos que sua cabeça seja decepada ou que a membrana de seu cérebro ou a medula (espinhal) seja separada, eu o tornarei inteiro para a batalha do dia seguinte.”

 

“E tu, ó Credne,” disse Lugh para seu braseiro, “que poder exercerá na batalha?”

 

“Não é difícil dizer,” respondeu Credne. “Eu irei provê-los com rebites para suas lanças, cabos para suas espadas e ornamentos e aros para seus escudos.”

 

“E tu, ó Luchta,” disse Lugh para seu carpinteiro, “que poder você exercerá na batalha?”

 

“Não é difícil dizer,” respondeu Luchta. “Eu irei provê-los com todos os escudos e fustes de dardos que precisarem.”

 

“E tu, ó Ogma,” disse Lugh para seu campeão, “qual será seu poder na batalha?”

 

“Não é difícil dizer,” respondeu ele, “vou repelir os reis e três enéadas de seus amigos e capturarei um terço do batalhão para os homens da Irlanda.” 

 

“E tu, ó Morrígan,” disse Lugh, “que poder você exercerá?” 

 

“Não é difícil dizer,” respondeu ela. “O que eu seguir, eu caçarei: o que eu atingir será [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra]: o que eu cortar será [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra].”

 

“E vocês, ó feiticeiros,” disse Lugh, “que poder vocês exercerão?”

 

“Não é difícil dizer,” responderam os feiticeiros. “Suas solas serão brancas quando forem derrotados pela nossa arte, até seus heróis serem mortos e os privaremos de dois terços de seu poder e prenderemos sua urina.” 

 

“E vocês, ó copeiros,” disse Lugh, “qual poder?”

 

“Não é difícil dizer,” responderam os copeiros. “Nós traremos uma forte sede sobre eles e eles não encontrarão água para saciá-la.” 

 

“E vocês, ó druidas,” disse Lugh, “que poder?”

 

“Não é difícil dizer,” responderam os druidas. “Nós traremos chuvas de fogo nas faces dos fomorianos para que eles não sejam capazes de olhar para cima e para que os guerreiros com quem eles estejam lutando possam mata-los com seu poder.”

 

“E tu, ó Carpre, o filho de Etain,” disse Lugh para seu poeta, “que poder você exercerá na batalha?” 

 

“Não é difícil dizer,” respondeu Carpre. “Eu farei o glam dicinn para eles. Eu irei satirizá-los e envergonhá-los de forma que através de minha arte, seus guerreiros não resistirão.” 

 

“E vocês, ó Bé-chulle e ó Dianann,” disse Lugh para suas duas bruxas, “que poder vocês exercerão na batalha?” 

 

“Não é difícil dizer,” responderam elas, “nós encantaremos as árvores, pedras e torrões de terra para que eles se tornem uma tropa contra eles e os expulsem com horror e (aflição).” 

 

“E tu, ó Dagdae,” disse Lugh, “que poder você exercerá na batalha contra a tropa fomoriana?”

 

“Não é difícil dizer,” respondeu o Dagdae. “Eu ficarei do lado dos homens de Erin, batendo, destruindo ou encantando. Seus ossos sob minha clava serão muitos como pedras de granizo sob os pés da manada de cavalos [lacuna: significado do texto obscuro] onde vocês encontrarão [lacuna: significado do texto obscuro] no campo de batalha de Moytura.”

 

Dessa forma Lugh conversou com todos de cada vez sobre suas artes; ele fortaleceu e chamou a atenção de sua tropa para que cada homem tivesse o espírito de um rei ou de um poderoso senhor.

 

Todos os dias a batalha era travada entre as tribos dos fomorianos e dos Tuatha Dé, mas os reis ou príncipes não participavam, exceto o povo forte e altivo.

 

Os fomorianos se espantaram com uma coisa que foi revelada a eles na batalha. Suas armas, lanças e espadas ficavam cegas e quebradas e os seus homens que morriam, não voltavam na manhã seguinte, e era diferente com os Tuatha Dé, pois apesar de suas armas ficarem cegas ou quebradas no dia da batalha, elas eram renovadas na manhã seguinte, pois o ferreiro Goibniu estava na forja fazendo espadas, lanças e dardos. Ele fazia aquelas armas três vezes. O carpinteiro Luchtaine fazia os fustes das lanças com três cortes, e o terceiro era uma finalização para encaixá-lo no aro da lança. Quando as pontas das lanças eram emperradas na forja, ele atirava os aros com os fustes e era desnecessário montá-las novamente. O braseiro Credne fazia os rebites três vezes e colocava os aros das lanças neles, e era desnecessário [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra] diante deles, e assim eles faziam juntos.

 

Os guerreiros mortos lá eram estimulados de forma que ficavam mais rápidos na manhã seguinte, pois Dian-cecht, seus dois filhos Octriuil e Miach e sua filha Airmed cantavam feitiços sobre o poço chamado Sláine. Seus homens mortalmente feridos eram lançados lá como se estivessem mortos e depois saíam vivos. Os mortalmente feridos ficavam saudáveis novamente através do poder do cântico dos quatro médicos sobre o poço.

 

Isso era prejudicial aos fomorianos, que disseram para um homem deles inspecionarem a batalhe o (costume) dos Tuath Dea: Ruadán, o filho de Bres e de Brígh, a filha do Dagda, pois ele era o filho e o neto dos Tuath Dé. Ele então contou para os fomorianos o trabalho do ferreiro, do carpinteiro, do braseiro e dos quatro médicos ao redor do poço. Ele foi enviado novamente para matar um dos artistas, Goibniu. Ele pediu uma lança para Goibniu, seus rebites para o braseiro e o seu fuste para o carpinteiro, e tudo foi dado como ele pediu. Havia uma mulher lá polindo as armas, Cron, a mãe de Fianlug, e foi ela que encalhou a lança de Ruadán. A lança foi dada a Ruadáin por um chefe, e por isso o nome ‘a lança do chefe’ é ainda usado para o cilindro de tear dos tecelões da Irlanda.

 

Depois que a lança foi dada a ele, Ruadán se virou e feriu Goibniu, mas esse tirou a lança e a lançou de volta em Ruadán, atravessando-o, e ele morreu na presença de seu pai na assembleia dos fomorianos. Brígh então veio e chorou pelo seu filho. Primeiro ela gritou, e depois, chorou, e essa foi a primeira vez que os gritos e choros foram escutados na Irlanda. Foi Brígh que inventou o assobio para a sinalização na noite.

Goibniu entrou no poço e ficou saudável novamente. Havia um guerreiro com os fomorianos cujo nome era Octriallach, o filho de Indech, filho de Dé Domnann, filho do rei dos fomorianos. Ele disse aos fomorianos para que cada deles levasse uma pedra das pedras de Drowes e lança-la no poço de Slaine em Achad Abla, à oeste de Moytura e à leste de Loch Arboch. Assim eles partiram e uma pedra para cada homem foi lançada no poço, e daí surgiu o cairn11 chamado ‘Cairn de Octriallach’. Outro nome para aquele poço é Loch Luibe, pois Dian-cécht colocou nele todo tipo de erva (lub) que crescia em Erin.

Quando o encontro da grande batalha chegou, os fomorianos marcharam para fora de seu acampamento e se formaram em fortes e indestrutíveis batalhões. Nenhum de seus chefes ou homens de proeza estava sem uma cota de malha contra sua pele, um capacete em sua cabeça, uma grande e (sonora) espada em sua mão direita, uma pesada e afiada espada em seu cinto ou sem um firme escudo em seu ombro. Atacar a tropa fomoriana aquele dia era ‘bater a cabeça contra um penhasco’, ‘colocar a mão em um ninho de serpentes’ ou ‘confrontar o fogo’.

Esses eram os reis e chefes que estimulavam a tropa dos fomorianos: Balor, o filho de Dot, filho de Nét, Bres, o filho de Elathu, Tuiri Tortbuillech, o filho de Lobos, Goll, Irgoll, Loscen-lomm, o filho de Lommglúnech, Indech, o filho de Dé Domnann, o rei dos fomorianos, Octriallach, o filho de Indech, Omna, Bagna e Elathu, o filho de Delbaeth.

Do outro lado, os Tuath Dé Donann surgiram e deixaram seus nove camaradas protegendo Lugh e marcharam ao encontro da batalha. Quando a batalha (seguia), Lugh escapou de sua proteção, como seu cocheiro, e foi para frente do batalhão dos Tuath Dea. Então uma afiada e cruel batalha foi travada entre a tribo dos fomorianos e os homens da Irlanda. Lugh estimulava os homens da Irlanda para que eles lutassem a batalha fervorosamente para não ficarem mais sendo escravos, pois era melhor para eles encontrar a morte protegendo sua pátria do que ficarem sob escravidão e tributos. Portanto, Lugh cantou o cântico abaixo conforme rodeava os homens de Erin, em um pé e com um olho fechado:

Arotroi cath comartan, etc.

As tropas proferiram um grande grito quando entraram na batalha. Eles se aproximaram e cada um começou a bater no outro.

Muitos homens belos caíram na baia da morte. Grande eram a matança e os túmulos lá! Orgulho e vergonha estavam lado a lado, havia raiva e indignação. Abundante era o fluxo de sangue que saía da pele branca dos jovens guerreiros mutilados pelas mãos de homens mais rápidos enquanto fugiam do perigo para [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: uma palavra]. Desagradável era a […] e […] dos heróis e dos campeões mutuamente defendendo suas lanças, escudos e seus corpos quando os outros os atingiam com lanças e espadas. Desagradável, no entanto, era o trovão que estava na batalha, o grito dos guerreiros e o barulho dos escudos, o lampejo e o assobio de gládios e de espadas com o punho de marfim, o ruído e o tilintar das aljavas, o som e o voo dos dardos e lanças e a colisão de armas!

A ponta de seus dedos e de seus pés quase se encontrava na luta mútua, e devido ao sangue escorregadio sob seus pés, eles caíam de sua postura ereta e batiam com a cabeça. Uma batalha foi levantada e era sangrenta, arrepiante, amontoada e sanguinária, e o rio Unnsenn corria com os corpos dos inimigos.

Nuada da Mão de Prata e Macha, a filha de Ernmass, foram mortos por Balor, o neto de Nét. Cassmael foi morto por Octriallach, o filho de Indech. Lugh e Balor do Olho Penetrante se encontraram na batalha. Balor tinha um olho maligno e só era aberto no campo de batalha. Quatro homens levantavam sua pálpebra com um puxador (polido) que passava pela sua pálpebra. Se uma tropa olhasse para aquele olho, mesmo que seu número fosse muitos milhões, eles não podiam resistir. Essa foi a história de seu poder venenoso: os druidas de seu pai estavam inventando encantamentos. Ele veio e olho pela janela e a fumaça da invenção foi até esse olho, chegando até ele o veneno da mistura que posteriormente foi para o olho. Ele e Lugh então se encontraram. [lacuna: significado do texto obscuro]I

“Levante minha pálpebra, rapaz,” disse Balor, “para que eu possa ver o tagarela que está conversando comigo.”

A pálpebra do olho de Balor foi levantada. Lugh então lançou uma pedra do estilingue nele que fez com que o olho atravessasse sua cabeça, fazendo com que o próprio exército de Balor olhasse para ele. O olho caiu na tropa dos fomorianos e três vezes nove fomorianos morreram de forma que as coroas de suas cabeças foram contra o peito de Indech, o filho de Dé Domnann, e um jorro de sangue saiu de seus lábios.

Indech disse: “Chamem o meu poeta Loch Meio-verde!” Metade do corpo do poeta, do chão até a coroa de sua cabeça, era verde. Loch foi até o rei. “Descubra para mim,” disse Indech, “quem me golpeou?”

Então a Morrígan, a filha de Ernmass, veio e estimulou os Tuatha Dea para lutarem a batalha ferozmente e fervorosamente. Ela cantou a canção abaixo:

Reis se levantem para a batalha, etc.

Posteriormente, a batalha se tornou uma derrota e os fomorianos foram espancados até o mar. O campeão Ogma, o filho de Elathu, e Indech, o filho de Dé Domnann, o rei dos fomorianos, caíram em um único combate.

Loch Meio-verde suplicou a Lugh por misericórdia. “Me dê três desejos,” disse Lugh.

“Você os terá,” disse Loch. “Até o último dia, eu afastarei da Irlanda todos os saques dos fomorianos, e o que [lacuna: significado do texto obscuro/extensão: algumas palavras] no fim do mundo para cada doença.”

Loch então foi poupado e cantou para os gaélicos o ‘Decreto da União’:

Gebat foss, etc.

Loch disse que concederia nomes para as nove bigas de Lugh pela misericórdia que havia sido dada a ele. Lugh então pediu para ele nomeá-las. Loch respondeu: “Luachta, Anagat, etc.”

“Pergunta: qual o nome dos cocheiros que estão nelas?” “Medol, Medon, Moth, etc.”

“Qual o nome das varas que estão em suas mãos?” “Não é difícil dizer: Fes, Res, Roches, etc.”

“Qual o nome dos cavalos?” “Can, Doriadha, etc.”

“Pergunta: qual é o número dos mortos?” disse Lugh para Loch. “Eu não sei o número dos camponeses e da ralé. Quanto ao número dos senhores, nobres, campeões, reis e filhos dos reis fomorianos, eu sei: cinco mil e três vezes três homens, dois mil e três vezes cinquenta, quatro vezes mil e nove vezes cinco, oito vezes oito, quatro vezes sete, quatro vezes seis, oito vezes cinco e quarenta e dois, incluindo o neto de Nét. Esse é o número dos reis e altos nobres fomorianos que caíram na batalha.”

“Contudo, quanto ao número de camponeses, pessoas comuns, ralé e o povo das artes que vieram em companhia com a grande tropa – para cada campeão, chefe e rei dos fomorianos que vieram com sua tropa para a batalha, todos caíram lá, tanto homens livres como escravos – nós contamos apenas alguns servos dos reis. Esse é o número que contei conforme vi: setecentos, sete vezes sete homens [lacuna: extensão: alguns números] junto com Sab Uanchennach, o filho de Carpre Colc, ele era o filho de um servo de Indech, o filho de De Domnann, isto é, o filho de um servente do rei fomoriano.”

“Quanto aqueles que caíram ao lado do ‘meio-homem’ e de [lacuna: extensão: três palavras] que não chegaram ao coração da batalha, esses não serão de forma alguma contados até nós contarmos as estrelas do céu, a areia do mar, os flocos de neve, o orvalho na grama, pedras de granizo, a grama sob as patas das manadas e os cavalos do Filho de Lir em uma tempestade no mar.”

Depois disso, Lugh e seus companheiros encontraram Bres, o filho de Elathu, desprotegido. Ele disse: “É melhor você me poupar do que me matar.”

“E o que se seguirá após isso?” disse Lugh. “Se eu for poupado,” disse Bres, “as vacas de Erin sempre darão leite.” “Levarei isso aos nossos homens sábios,” disse Lugh.

Lugh então foi até Maeltne Mór-brethach e disse para ele: “Bres deverá ser poupado para fornecer constantemente o leite para as vacas de Erin?”

“Ele não deve ser poupado,” disse Maeltne, “pois ele não tem poder sobre sua idade ou sobre a (prole), pois ele só poderá ordenhá-las enquanto elas estiverem vivas.”

Lugh disse para Bres: “Isso não te salva: tu não tens o poder sobre sua idade e sobre sua (prole), pois você não poderá ordenhá-las.”

Bres disse: “Forbotha, etc.” (…)

“Há algo mais que possa te salvar, ó Bres?” disse Lugh.

“Tem, na verdade. Conte a seu brehon que se você me poupar, os homens da Irlanda farão uma colheita a cada trimestre do ano.”

Lugh disse para Moeltne: “Bres deve ser poupado para dar aos homens da Irlanda uma colheita de grãos a cada trimestre?”

“Isso nos satisfaz,” disse Maeltne, “a primavera para arar e para a semeadura, o início do verão para o fortalecimento do grão, o início do outono para a colheita do grão e o inverno para consumi-lo.”

“Isso não te salva,” disse Lugh para Bres. “Forbotha, etc.” (…) disse ele.

“Menos do que isso te salva,” disse Lugh. “O que?” disse Bres.

“Como os homens da Irlanda devem arar? Como devem semear? Como devem colher? Depois de me dizer essas três coisas, tu será poupado.” “Conte a eles,” disse Bres, “que o arado deverá ser feito na terça-feira, a semeadura no campo na terça-feira e a colheita em uma terça-feira.”

Através desse estratagema Bres foi liberado.

Naquela luta, o campeão Ogma encontrou Orna, a espada de Tethra, um rei fomoriano. Ogma desembainhou a espada e a limpou. A espada depois contou todas as coisas que haviam sido feitas por ela, pois era o costume das espadas naquela época, que quando desembainhadas, contar todos os feitos realizados por elas. Por isso, as espadas também são autorizadas ao tributo da limpeza depois delas terem sido desembainhadas. Daí, também, encantamentos são preservados nas espadas. O motivo pelo qual os demônios podiam falar pelas armas naquela época era por que essas armas eram cultuadas por seres humanos e estavam entre a salvaguarda daquele tempo. Foi sobre essa espada que Loch Lethglas cantou:

Ademll maorna uath, etc.

Lugh, Dagdae e Ogma perseguiram os fomorianos, pois eles haviam roubado a harpa do Dagdae, cujo nome era Uaitne. Eles então chegaram ao salão dos banquetes no qual estava Bres, o filho de Elatha, e Elathan, o filho de Delbaeth. Eles penduraram a harpa na parede. Essa era a harpa na qual o Dagda uniu as melodias para que elas não fossem cantadas até serem invocadas por ele, quando ele disse:

 

Venha Daurdabla!

Venha Coir-cethar-chuir!

Venha verão, venha inverno!

Entrada das harpas, gaitas e flautas!

(Essa harpa tinha dois nomes: Dur-da-bla, ‘Carvalho dos dois (verdes)’ e Coir-cetharchuir, ‘Música de quatro ângulos’).

A harpa então saiu da parte e matou nove homens até chegar ao Dagdae. Ele tocou para eles as três coisas pelas quais os harpistas são conhecidos: a melodia do sono, a melodia do sorriso e a melodia do choro. Ele tocou para eles a melodia do choro e todas as mulheres tristes choraram. Ele tocou a melodia do sorriso, e todas as suas mulheres e crianças sorriram. Ele tocou a melodia do sono, e as tropas adormeceram, e através do sono deles, os três escaparam ilesos dos fomorianos que desejavam matá-los.

O Dagdae trouxe com ele [lacuna: texto omitido originalmente] através do mugido da novilha que havia sido lhe dado pelo seu trabalho, pois quando ela chamou seu bezerro, todo o gado da Irlanda que os fomorianos tinham tomado como seu tributo, pastaram.

Agora que a batalha tinha sido vencida e os corpos haviam sido levados, a Morrígan, filha de Ernmas, procedeu até as alturas reais da Irlanda, para suas tropas fadas e para suas águas chefes e fozes de rios, a fim de proclamar a batalha e a poderosa tropa que tinha vencido. E a partir daí, Badb também descreveu os grandes feitos. “Você tem algum conto?” todos disseram para ela, que disse:

Paz sobe para o céu,

O céu desce para a terra,

A terra sob o céu,

A força está em todos,etc.

Além disso, ela estava profetizando o fim do mundo e prevendo toda a maldade que estaria nele, todas as doenças e todas as vinganças e cantou a canção abaixo:

 

Eu não vejo um mundo querido para mim.

Verão sem flores,

Vacas estarão sem leite,

Mulheres sem modéstia,

Homens sem coragem

Capturas sem um rei.

[lacuna: extensão: aproximadamente seis palavras]

Bosques sem mastro,

Mar sem produção,

[lacuna: extensão: aproximadamente 40 palavras]

Falsos julgamentos de homens velhos,

Falsos precedentes de brehons,

Todos os homens serão traidores,

Todos os meninos serão ladrões.

Filho entrará na cama de seu pai,

Pai entrará na cama de seu filho.

Todos serão os cunhados de seus irmãos.

[lacuna: extensão: oito palavras]

Um tempo maligno!

Filhos enganarão seu pai,

Filhas enganarão sua mãe.

 

Notas da tradução para o inglês

  1. Samildánach. Aqui é uma lacuna, obviamente.
  2. Echarlám. Etharlám?
  3. Cró de Lugh. Provavelmente alguma cabana ou outro recinto em que Lugh colocava seus prêmios.
  4. Obviamente, a nota de um escriba inserido no texto por um copista. De acordo com os Four Masters, a segunda batalha de Moytura foi lutada em 3330 do anno mundi.
  5. e. Grellach Dolaid. Agora conhecida como Girley, localiza-se a duas milhas ao sul de Kells, em Meath. Four Masters, 693 anno domini [e o Forus Feasa, do Keating, livro II, seção XIV, 140/141].
  6. Márloch. Mor-loch, um nome para o Lough Ribh próximo à Lanesborough, condado de Roscommon.
  7. Seus testículos? Cf. ‘airne toile’, O. Davoren 54.
  8. Aqui foi omitido um relato do encontro do Dagda com a filha de Indech, sob as dificuldades causadas pela distensão do estômago do Dagda. Grande parte desse trecho é obscura para mim e o restante é muito indecente para ser publicado na Revue. O desfecho é que a filha de Indech se compromete a praticar suas artes mágicas contra a tropa de seu pai.
  9. Aqui foi omitido um diálogo ininteligível entre Balor e Lugh.

 

Fonte: STOKES, Whitley. The Second Battle of Moytura in Revue Celtique. Volume 12. Disponível em: <http://www.ucc.ie/celt/published/T300011.html&gt;.    

 

Notas de tradução

  1. Cerveja. O termo original é ale, que apesar da tradução ser cerveja, a palavra tem um sentido diferente da nossa cerveja brasileira. O ale, segundo o site “Wikipédia”, é um tipo de cerveja produzida a partir da cevada maltada onde se usa uma levedura capaz de fermentar a cerveja rapidamente e proporcionar um sabor de frutas devido a componentes químicos encontrados nessa levedura.
  2. Rath. Um montículo de terra remanescente de habitações circulares na Irlanda.
  3. Essas lacunas são palavras ou frases obscuras que os tradutores não foram capazes de traduzir do irlandês para o inglês.
  4. Para. “Para”, no sentindo de “se ligando à”. Articulação se ligando à articulação e tendão se ligando ao tendão.
  5. Wergild. De acordo com o site “Wikipédia”, o termo é oriundo da antiga sociedade germânica e sua palavra é traduzida como “preço do homem”, consistindo de um valor pago caso um homem fosse morto, como uma restituição.
  6. Xadrez. No texto em inglês, o termo é chess que se traduz como xadrez, porém, no manuscrito original em irlandês, aparece a palavra fidchell, que não significam a mesma coisa. O fidchell, segundo o site “Wikipédia” foi um antigo jogo irlandês de tabuleiro com contraparte no País de Gales. Embora hoje não se saiba o método do jogo, as regras e as peças, acredita-se que este seja a origem do nosso moderno xadrez.
  7. Laje. O termo original em inglês é flag-stone, que consiste em lajes de pedra dos megalitos.
  8. Brehon. Segundo o site “Wikipédia”, é o termo histórico para designar um papel judicial, de arbitragem e mediador na cultura gaélica.
  9. Testículos. O termo original em inglês é kidneys of his valour, que significaria “rins de sua coragem”, porém, uma nota da tradução para o inglês diz que poderia ser também “rins de seus testículos”. Acredito que a última tradução seja a mais provável, conforme coloquei aqui.
  10. Brogues. Sapatos rudimentares usados na Irlanda antiga, feito com pele não tingida e com perfurações que permitem escoar a água quando a pessoa passasse por lugares molhados, como pântanos ou charcos. Mais tarde, evoluiu para uma versão moderna similar ao sapato Oxford.
  11. Cairn. Monte ou pilha de pedras.  

A primeira batalha de Magh Turedh Part 2

A primeira batalha de Magh Turedh
Cét-chath Maige Tuired/
Cath Maighe Tuireadh Cunga/
Cath Maighe Tuireadh Theas

[…]

 

Os Fir Bolg tinham entrincheirado um grande forte. (Ele era chamado o Forte das Matilhas, pelas matilhas de cães que predavam sobre os corpos dos mortos após a batalha, ou Forte dos Poços Sangrentos, pelos poços de sangue que cercavam os feridos quando as pessoas vinham para vê-los.) Eles fizeram um Poço de Cura para curar seus guerreiros de suas feridas. Ele foi cheio com ervas. Outro forte entrincheirado foi feito pelas Tuatha De. (Ele era chamado Forte dos Inícios, pelos inícios ali direcionados para a batalha). Eles cavaram um Poço de Cura para curar suas feridas.

Quando esses trabalhos estavam terminados, Cirb perguntou: “De onde viestes, para onde vão? O cuidado da batalha de amanhã seja vosso. Eu irei liderar o ataque com Mogarn e seu filho Ruad, Laige e seu pai Senach,” “Nós os enfrentaremos com quatro batalhões,” foi a resposta.

  1. Seis semanas do verão, metade do quarto, chegou ao dia combinado da batalha. As hostes se ergueram naquele dia com o primeiro brilho da luz do sol. Os perfeitamente forjados escudos pintados estavam içados nas costas dos bravos guerreiros, as firmes lanças temperadas e dardos de batalha estavam apertados nas mãos direitas dos heróis, junto com os brilhantes espadas que faziam duelos ofuscantes com luzes como brilhantes raios de sol cintilados nos bosques esculpidos de espadas. Assim, as firmes companhias em formação, se moveram pela força da paixão de seus corajosos comandantes, avançando em direção a Mag Nia para dar batalha às Tuatha De. Foi então que o poeta dos Fir Bolg, Fathach, foi à frente para descrever sua fúria e espalhar a notícia dela. Ele ergueu e plantou firmemente no meio da planície um pilar de pedra, no qual ele se recostou. Esse foi o primeiro pilar posto na planície, Pilar de Fathach foi seu nome daí em diante. Então Fathach em total angústia derramou dilúvios de ferventes lágrimas ferventes, e disse:

“Com que pompa eles avançam! Sobre Mag Nia eles marcham com poder animador. Assim as Tuatha De que avançam, e os Fir Bolg das lâminas decoradas.

“A Badb Vermelha vai agradecer pelos combates que eu vejo. Muitos serão os seus corpos talhados no Leste após sua visita à Mag Tured.

“(…) serão a hoste após a partida dos guerreiros de que falo. Muitas cabeças serão feridas com pompa e vigor. ”

  1. As Tuatha formaram uma compacta hoste bem armada, liderada por guerreiros lutadores e providos com armas mortais e escudos rígidos. Cada um deles se pressionou sobre seu vizinho com a borda de seu escudo, a haste de sua lança, ou a guarda de sua espada, tão fortemente que eles feriam uns aos outros. O Dagda começou o ataque sobre o inimigo por cortar seu caminho através deles a oeste, abrindo um caminho para cento e cinquenta. Ao mesmo tempo Cirb causou um massacre sobre as Tuatha De, e devastou suas fileiras, abrindo um caminho para cento e cinquenta através deles. A batalha continuou em uma série de combates e duelos, até que, no espaço de um dia, um grande número tinha sido destruído. Um duelo teve lugar entre Aidleo das Tuatha De e Nerchtu dos Fir Bolg. As juntas rígidas de seus escudos foram rasgadas, as espadas separadas de suas guardas, e rebites das lanças perdidos. Aidleo tombou pelas mãos de Nerchtu.
  1. Ao fim do dia, as Tuatha De estavam derrotadas e retornaram ao seu campo. Os Fir Bolg não os perseguiram pelo campo de batalha, mas retornaram animados para seu próprio campo. Cada um deles levou com eles à presença de seu uma pedra e uma cabeça, e fizeram um grande cairn com elas. As Tuatha De ergueram um pilar de pedra chamado Pilar de Aidleo, pelo primeiro deles a ser morto. Seus curandeiros então se reuniram. Os Fir Bolg também tinham seus curandeiros levados com eles. Eles levaram ervas curativas, e as esmagaram e moeram na superfície da água do poço, e as preciosas águas curativas se tornaram espessas e esverdeadas. Seus feridos foram colocados dentro do poço, e imediatamente saíam inteiros.
  1. Na manhã seguinte, Eochaid, o Alto-Rei, foi para poço sozinho para lavar suas mãos. Enquanto ele o fazia, viu sobre ele três belos e soberbos homens armados. Eles o desafiaram para o combate. “Me deem tempo, ” disse o rei, “para pegar minhas armas. ” “Nós não lhe daremos nem um momento para isso; o combate deve ser agora. ” Enquanto o rei estava nessa dificuldade, um jovem homem ativo apareceu entre ele e seus inimigos, e se virando para eles, disse: “Vocês terão combate de mim, no lugar do rei. ” Eles ergueram suas mãos simultaneamente, e lutaram até que todos os quatro caíram juntos. Os Fir Bolg vieram após o combate estar terminado. Eles viram os homens mortos, e o rei lhes disse como eles haviam vindo sobre ele, e como o campeão solitário havia lutado com eles em seu lugar. Cada homem dos Fir Bolg trouxe uma pedra para o poço por ele, e construíram um grande cairn. O Cairn do Campeão é o nome do cair, e a colina é chamada a Colina dos Três. Os estranhos eram Oll, Forus e Fir, três curandeiros, irmãos de Diancecht, e eles haviam vindo para espionar os curandeiros dos Fir Bolg, quando eles viram Eochaid lavando o rosto.
  1. Os batalhões das Tuatha De estavam organizados sobre a planície do Leste, e os Fir Bolg vieram para a planície contra eles do Oeste. Os chefes que foram na frente das Tuatha De naquele dia foram Ogma, Midir, Bodb Dearg, Diancecht, e Aengaba da Noruega. As mulheres, Badb, Macha, Morrigan e Danann ofereceram companhia a eles. Contra eles vieram os Fir Bolg, Mella, Esa, Ferb, e Faebur, todos filhos de Slainge. Fortes, poderosos golpes foram dados pelos batalhões em cada lado, e as bordas dos escudos foram quebradas quando elas vigorosamente enfrentavam os golpes, enquanto os homens em armas mostravam sua fúria, e os guerreiros mostravam sua coragem. Suas lanças eram torcidas pela luta continua; nos combates manuais, as espadas quebravam nos ossos despedaçados; os aterrorizantes brados de batalha dos veteranos eram afogados na multidão de gritos.

Vigorosamente, os jovens se viram para o número de ataques ao seu redor, em cada lado. Os guerreiros se encolhiam com os encontros das espadas, a força do peso, e a fúria da queda. Bem calculado era a defesa ali, e galante a guarda, e rápido os golpes dados. Nemed, filho de Badrai, se aproximou do flanco dos Fir Bolg. Então os homens o cercaram, e no conflito, o filho de Eochaid, Slainge, o Belo, foi em sua direção. Os dois guerreiros atacaram um ao outro. Houve distensão de lanças e tremor de espadas e estilhaças de escudos e golpear de corpos. No entanto, Nemed caiu pelas mãos de Slainge; eles cavaram sua sepultura e ergueram um pilar para ele, e a Pedra de Nemed é seu nome até hoje. Quatro filhos de Slainge, filho de Dela, entraram na luta contra as Tuatha De. No lado das Tuatha De, os quatro filhos de Cencal lutaram contra eles. Eles enfrentaram uns aos outros até que os filhos de Cencal caíram perante os filhos de Slainge. Esses então foram enfrentados pelos cinco filhos de Lodan, o Veloz, e os cinco filhos de Lodan tombaram por suas mãos. Aengaba da Noruega começou a dobrar o inimigo e confundir suas linhas. Ruad ouviu isso e correu para a luta. Os três filhos de Dolad o enfrentaram, e ele despejou sua raiva sobre eles, e eles caíram perante ele. De outro quarto da batalha, os três filhos de Telle o enfrentaram, e foram mortos por ele da mesma forma. Lamh Redolam e Cosar Conaire foram mortos por Slainge, o Belo, ao lado do lago. Desses dezessete, as lápides foram postas ao lado do lago, pois eles tinham recuado até ali.

  1. Ruad e Aengaba da Noruega se enfrentaram; eles ergueram seus escudos um contra o outro, e continuaram ferindo um ao outro até que Aengaba tinha vinte e quatro ferimentos infligidos por Ruad. No final, Ruad cortou sua cabeça, e após isso continuou lutando até o anoitecer.
  1. Ogma, filho de Ethliu, fez um ataque sobre a hoste, e seu rastro foi marcado por poças de sangue rubro. Do lado leste, Cirb entrou na luta e fez um massacre sobre as hostes, e trezentos das Tuatha caíram perante ele.
  1. Quando a noite caiu, os Fir Bolg recuaram pelo campo de batalha. De qualquer modo, cada um levou uma cabeça e uma pedra para Eochaid, seu rei. “Isso é o que vocês conseguiram hoje? ” Disse o rei, “Sim, ” disse Cirb, “mas isso não será de lucro para eles. ”
  1. No dia seguinte foi a vez de Sreng, Semne, e Sithbrug, juntos com Cirb, de liderar os Fir Bolg; eles se levantaram cedo. Uma ofuscante cobertura de escudos, e uma rígida floresta de dardos eles fizeram sobre si, e os apoios de batalha então se moveram adiante. “Com quanta pompa, “ eles disseram, “essas tropas entram na planície e vem em nossa direção. ” E foi então que a planície ganhou o nome de Mag Tured, a Planície dos Apoios.
  1. As Tuatha De perguntaram quem deveria lidera-los naquele dia. “Eu irei, ” disse o Dagda, “pois em mim vocês tem um excelente deus; ” e então, ele foi adiante com seus filhos e irmãos. Os Fir Bolg estacionaram firmemente suas formações e colunas, e marcharam seus batalhões ao nível de Mag Nia (que, dali em diante, foi chamada de Mag Tured, a Planície dos Apoios). Cada lado então apareceu para o outro. Sreng, filho de Sengann, começou a desalojar as hostes do inimigo. O Dagda foi a romper os batalhões e devastar as hostes e desalojar suas posições e a força-los de suas posições. Cirb, filho de Buan, entrou no combate pelo Leste e massacrou bravos homens e altivos soldados. O Dagda ouviu a investida de Cirb, e Cirb ouviu os ressoantes golpes do Dagda. Eles surgiram um para o outro. Furiosa foi a luta quando as boas espadas fenderam, heroicos os heróis quando eles mantiveram a infantaria, e responderam aos massacres. No final, Cirb tombou perante os ressoantes golpes do Dagda.

Sreng, filho de Sengann estava pressionando as hostes de seus lugares quando ele chegou aos três filhos de Cairbre Cas das Tuatha De, e aos três filhos de Ordan. Os filhos de Cairbre com suas três colunas caíram perante os filhos de Ordan, quando Sreng guiou as hostes. O inimigo caiu perante ele a cada lado, e a fúria do combate cresceu por trás das linhas.

  1. Após a que de Cirb os Fir Bolg recuaram para seu campo. As Tuatha De não os perseguiram através do campo de batalha, mas eles levaram consigo uma cabeça e um fragmento de um pilar de pedra, incluindo a cabeça de Cirb, que foi enterrada no Cairn da Cabeça de Cirb.
  1. Os Fir Bolg não estavam nem felizes nem alegres naquela noite, e quanto às Tuatha De, eles estavam entristecidos e desanimados. Mas durante a mesma noite, Fintán veio com seus filhos para se juntarem aos Fir Bolg, e isso alegrou a todos, pois valentes eram tanto ele quanto eles.
  1. Nesse humor alegre a manhã os encontrou. Os sinais de seus chefes os levantaram nas vastas encostas do acampamento, quando eles começaram a encorajar um ao outro para enfrentar o perigo e o risco. Eochaid, o Alto-Rei, com seu filho, Slainge o Belo, e os soldados e chefes de Connaught, vieram para se juntar a eles. Os três filhos de Sengann com as hostes da província de Curoi, tomaram seu lugar no flanco da linha. Os quatro filhos de Gann com os guerreiros da província de Eochaid marcharam para o centro do mesmo exército. Os filhos de Buan, Esca e Egconn se uniram com os da província de Conchobar no outro flanco. Os quatro filhos de Slainge com a hoste dos Gaileoin trouxeram a retaguarda do exército. Ao redor de Eochaid, o Alto-Rei, eles fizeram uma barreira de valorosos bravos de vermelho sangue ansiosos por batalha, a garbosos cavaleiros e as tropas mais confiáveis do mundo. Os treze filhos de Fintan, homens provados na corajosa resistência do conflito, foram trazidos para onde estava o rei. Uma massa flamejante era a batalha naquele dia, cheia de cores mutantes, muitos feitos e mãos sangrentas, de movimentos de espada e combates individuais, de lanças e espadas cruéis e dardos; feroz ela era, e sem misericórdia, e terrível, travada e apertada, furiosa e vasta, mutável e fluente com muitas aventuras. Os Fir Bolg, como é dito, marcharam corajosamente e vitoriosamente ao oeste, para a borda de Mag Tured, até que eles chegaram aos firmes pilares e apoios de valor entre eles e as Tuatha De. As passionais Tuatha De fizeram um impetuoso ataque furioso em companhias juntas com suas armas venenosas; e eles formaram uma poderosa falange sangrenta sob o abrigo dos fortes escudos de bordas vermelhas, ardentes, prateados. Os guerreiros começaram o conflito. Os flancos e os lados da vanguarda estavam cheios de veteranos grisalhos rápidos para ferir; homens idosos foram colocados para ajudar e atender os movimentos desses veteranos; e próximos a esses venenosos guerreiros resolutos foram colocados jovens de armas. Os campeões e seus servos foram colocados atrás dos jovens. Seus profetas e sábios se posicionaram sobre os pilares e locais vantajosos, empregando sua feitiçaria, enquanto os poetas tomavam nota dos feitos e escreviam contos deles. Quanto a Nuada, ele estava no centro da luta. Ao seu redor se reuniram seus príncipes e guerreiros apoiadores, com os doze filhos de Gabran da Cítia, sua guarda pessoal. Eles eram Tolc, Trenfer, Trenmiled, Garb, Glacedh, Gruasailt Duirdri, Fonnam, Foirisem, Teidm, Tinnargain e Tescad. Não haveria nenhuma alegria na vida para quem eles causassem um ferimento sangrento (até que eles mataram os filhos de Fintán e os filhos de Fintán os mataram). Assim eles realizaram seu ataque após amarrarem a seus corpos pedras de bordas ríspidas com fechos de ferro; e fizeram seu caminho para o lugar apontado para a batalha. Nesse momento Fathach, o poeta de Fir Bolg, foi ao seu pilar, e quando ele viu os exércitos do leste e oeste, disse:

“Velozmente avançam as hostes marchando sobre Mag Nia, seu poder irresistível; essas Tuatha De Danann que avançam e os Fir Bolg das palavras ditas.

“Eu penso que os Fir Bolg vão perder alguns de seus irmãos ali – muitos serão os corpos e cabeças e flancos rasgados na planície.

“Mas embora eles caiam por todo o lado, feroz e aguçado será seu ataque, embora eles caiam, eles farão outros cair, e heróis serão derrubados por seu impetuoso valor.

“Tu subjugaste os Fir Bolg; eles cairão ali ao lado de seus escudos e lâminas; eu não confiarei na força de ninguém pelo tempo que eu tenha de estar na tempestuosa Irlanda.

“Eu sou Fathach, o poeta; fortemente a tristeza se apossou de mim, e agora que os Fir Bolg se foram, eu devo me render ao veloz avanço do desastre. ”

  1. As fúrias e monstros e bruxas do julgamento gritaram tão alto que suas vozes foram ouvidas nas rochas e quedas d’água e nas cavernas da terra. Foi como o aterrorizante grito agonizante do último terrível dia quando a raça humana partirá de todo esse mundo. Na vanguarda das Tuatha De avançaram o Dagda, Ogma, Alla, Bres, e Delbaeth, os cinco filhos de Elatha, junto com Bres, neto de Net, o Fomorian, Aengus, Aed, Cermad o Belo, Midir, Bodb Derg, Sigmall Abartach, Nuada o Alto-Rei, Brian, Iuchar e Iucharba, os três filhos de Turenn Bigrenn, Cu, Cian e Cethenn, os três filhos de Cainte, Goibnenn o Ferreiro, Lucraid o Forjador, Credne o Artífice, Diancecht o Curandeiro, Aengaba da Noruega, as três rainhas, Ere, Fotla, e Banda, e as três feiticeiras, Badb, Macha e Morrighan, com Bechuille e Danann, suas duas madrinhas. Eles fixaram seus pilares no chão para evitar que qualquer um fugisse até que as pedras voassem. Eles golpearam uns aos outros com suas lanças afiadas, até que as sólidas hastes estavam torcidas pelos tremores das vítimas em suas pontas. Os gumes das espadas se viravam nos escudos cobertos de limo. As laminas curvadas eram temperadas nos poços ferventes de sangue nas coxas dos heróis. Alto era o cantar das lanças quando elas encontravam os escudos, alto o som e a confusão dos guerreiros quando eles golpeavam corpos e quebravam ossos no caminho. Rios de sangue fervente tomaram a visão dos olhos cinzentos dos guerreiros resolutos. Foi então que Bres fez um ataque sobre o exército Fir Bolg, e matou cento e cinquenta deles. Ele acertou nove golpes no escudo de Eochaid, o Alto-Rei, e Eochaid, por sua vez, lhe devolveu nove feridas. O filho de Sengann, Sreng, virou seu rosto para o exército das Tuatha De, e matou cento e cinquenta deles. Ele acertou nove golpes no escudo do Alto-Rei Nuada, e Nuada lhe devolveu nove ferimentos.

Cada um deu terríveis golpes de morte, fazendo grandes ferimentos sangrento na carne do outro, até que sob suas lâminas, escudos e lanças entalhadas, cabeças e elmos se quebraram como os frágeis ramos cortados com machadinhas usadas pelos fortes braços dos lenhadores. Heróis oscilavam de um lado para outro, cada um cercando o outro enquanto buscavam a oportunidade para um golpe. Os campeões de batalha se ergueram de novo sobre as bordas de seus escudos brilhantes. Sua coragem crescia, e os valentes homens virulentos firmes como um arco. Suas mãos iam com suas espadas, e eles rasgavam rapidamente sobre as cabeças de guerreiros, partindo seus elmos. Por um momento, eles retrocederam as fileiras do inimigo de seus lugares, e à visão deles as hostes ondearam como a água que vai muito além de seus lados por uma chaleira que ferveu demais, ou a inundação que, como uma queda d’água, um exército despeja sobre os bancos de um rio, tornando-o transponível para as tropas da retaguarda. Então, um lugar apropriado foi aberto para os chefes; os heróis cederam seus lugares, e ágeis combatentes suas posições; guerreiros foram desalojados, e servos fugiram por horror a eles. Para eles foi deixada a batalha. Pesadamente a terra foi pisoteada sob seus pés até que a turfa dura ficou macia sob eles. Cada um deles infligiu trinta ferimentos no outro. Sreng deu um golpe com sua espada em Nuada, e cortando a borda do escudo, ferindo o seu braço direito no ombro; e o braço do rei com um terço do seu escudo caiu no chão. Foi então que o Alto-Rei gritou alto por ajuda, e Aengaba da Noruega, ao ouvi-lo, entrou no combate para protegê-lo. Ferozes e furiosos foram os ataques que Aengaba e Sreng fizeram um ao outro. Cada um infligiu ao outro um número igual de ferimentos, mas eles não eram comparáveis, pois a larga lamina da lança de Sreng e sua rígida haste faziam sons mais profundos, mortais. Tão logo o Dagda ouviu a música das espadas em pressão de batalha, ele se apressou para o lugar do conflito com saltos deliberados, como o rugir de uma grande queda d’água. Sreng declinou de uma disputa com os dois guerreiros; e embora Aengaba da Noruega não cair ali, foi da violência daquele conflito que ele morreu depois. O Dagda veio e ficou sobre Nuada e, após as Tuatha Dé realizarem conselho, ele trouxe cinquenta soldados com seus curandeiros. Eles levaram Nuada do campo. Sua mão foi erguida no lugar do rei no círculo de valor, um círculo de pedras cercando o rei, e sobre ele o sangue da mão de Nuada foi pingado.

  1. As Tuatha De mantiveram o conflito intensamente e bravamente, após seu rei ter partido. Bres fez seu caminho entre as fileiras dos Fir Bolg para vingar seu rei, e chegou ao ponto onde Eochaid estava incitando a batalha, e fortificando seus guerreiros e exortando seus heróis e encorajando seus capitães e organizando seus combates. Um fez do outro seu oponente, e ferimentos foram infligidos onde eles estavam desprotegidos. Ante a ferocidade de sua fúria e o peso de seus golpes, os soldados foram lançados à confusão. No final, Bres foi morto por Eochaid; e o Dagda, Ogma, Alla, e Delbaeth atacaram-no para vingar seu irmão. Eochaid estava incitando a batalha, juntando e encorajando seus capitães, aproximando e juntando as fileiras dos soldados, mantendo seus guerreiros firmes e resolutos. Os quatro irmãos, em sua busca por Eochaid, levaram as hostes perante eles para o lugar onde eles o ouviam incitando a batalha. Mella, Esen, Ferb e Faebur, filhos de Slainge, os enfrentaram, e cada um acertou o escudo do outro. Suas espadas se bateram, e o conflito cresceu, e os gumes das laminas curvas cortavam ferimentos sangrentos. Os quatro filhos de Slainge caíram perante os outros quatro, e as Lápides dos Filhos de Slainge é o nome do lugar onde eles foram enterrados. Os quatro filhos de Gann então entraram em fúria. Contra eles avançaram Goibnenn, o Ferreiro, Lucraid, o Soldador, Dian Cecht e Aengaba de Noruega. Horrível era o som feito pelas armas mortais nas mãos dos campeões. Aqueles combatentes mantiveram a luta até que os quatro filhos de Gann foram mortos; e o Monte dos Filhos de Gann é o nome do lugar onde eles foram enterrados.
  1. Bedg, Redg e Rinne, os três filhos de Ordan, caíram sobre as Tuatha De, e as fileiras tremeram perante seu ataque. Os três filhos de Cainte os enfrentaram, mas eles se cansaram do conflito; e o Monte dos Magos é o lugar onde eles foram enterrados.
  1. Brian, Iuchar e Iucharba, os três filhos de Turenn Bigrenn, caíram sobre a hoste Fir Bolg. Eles foram opostos pelos dois filhos de Buan, e Cairbre filho de Den. Os filhos de Buan foram superados pelos filhos de Turenn Bigrenn, e as Lápides de Buan são as pedras que os cobrem, e a Tumba de Cairbre está ao lado das lápides.
  1. Eochaid e seu filho, Slainge, o Belo, então se juntaram ao combate, e destruíram inumeráveis companhias das Tuatha De. “Nossos melhores homens, ” disse Eochaid, “foram destruídos, nosso povo massacrado, e nos é bom ser absolvidos valorosamente. ” Então eles fizeram seu caminho pelo campo de batalha uma vez mais, e curvaram homens e massacraram soldados e talharam hostes e confundiram as fileiras com seus ataques. Após esse longo esforço continuo, Eochaid foi tomado por grande fraqueza e excesso de sede. “Tragam Sreng a mim, ” ele disse. Isso foi feito. “Você e Slainge, o Belo, ” disse Eochaid, “precisam manter a luta até que eu vá em busca de uma bebida e lavar meu rosto, pois não posso resistir a essa sede avassaladora. ” “Ela será bem mantida, ” disse Slainge, “embora nós sejamos apenas uns poucos para lutar em sua ausência. ” Eochaid então saiu da batalha com uma guarda de cem dos seus soldados. As Tuatha Dé os seguiram e gritaram para eles.
  1. Mas Slainge, o Belo avançou para enfrentar a hoste, e os deu batalha a eles, e evitou que seguissem o Alto-rei. Ele foi atacado pelo poderoso Lugaid, filho de Nuada, e os dois lutaram uma feroz batalha cruel e enérgica, no qual houveram feridas e chagas e escorno talhados. Tão logo os outros viram que Slainge prevalecia, deram apoio a Lugaid. Lugaid e Slainge caíram juntos, e a Sepultura de Lugaid é o lugar onde Lugaid foi enterrado, e Monte de Slainge é o monte onde eles enterraram Slainge.
  1. Quando os magos das Tuatha De viram como o rei da Irlanda estava sofrendo de uma sede consumidora, eles esconderam deles todos os riachos e rios da Irlanda até que ele chegou ao córrego de Eothail. Três filhos de Nemed, filho de Badrai, o seguiram, com cento e cinquenta homens. Eles lutaram sobre o córrego, e um número caiu a cada lado. Eochaid e os filhos de Nemed se enfrentaram em combate. Venenosos em batalha eram os filhos de Nemed, e treinado em lutar contra revezes era Eochaid. Eles lutaram até que seus corpos estivessem rasgados e seus peitos abertos com os poderosos ataques. Irresistível era o ataque do rei enquanto ele cortava sem parar os seus oponentes, até que ele e os três filhos de Nemed caíram. O Cairn de Eochaid é o cairn onde Eochaid foi enterrado (ele também é chamado de Cairn de Eothail), e as Lápides dos Filhos de Nemed estão no lado oeste do córrego.
  1. Quanto a Sreng, filho de Sengann, ele continuou lutando por um dia e uma noite após os seus companheiros, até que no fim nenhum lado era capaz de atacar o outro. Seus velozes golpes ficaram mais fracos por todo o massacre e seus espíritos caíram por todos os seus males, e sua coragem desvaneceu por toda a vastidão de seus desastres; e então eles se separaram. As Tuatha De se retiraram para as terras de Cenn Slebe e para as encostas do Glen de Sangue, e para o Monte das Lágrimas. Então o Dagda disse:

“Soldados mataram sem medida, muitas feridas em heróis; espadas cruéis rasgaram seus corpos. Os Fir Bolg superaram vocês (?)… sobre suas terras. ”

  1. “Quais foram suas perdas nessa última batalha? ” Disse Nuada ao Dagda. O Dagda lhe disse nessas palavras:

“Eu lhe direi, nobre Nuada, as histórias da terrível batalha, e após isso, suas calamidades e desastres eu contarei, oh filho de Echtach.

“Nela caíram nossos nobres perante a violência dos Fir Bolg; tão grandes são nossas perdas que poucos sabem delas.

“Bres, filho de Elatha, um guerreiro como uma torre, atacou as fileiras dos Fir Bolg, uma gloriosa luta, e matou cento e cinquenta deles.

“Ele deu nove golpes – selvagem foi o feito – no grande escudo de Eochaid, e Eochaid devolveu a Bres nove golpes.

“Enorme Sreng veio, e matou trezentos de nossa hoste. Ele deu nove golpes no seu escudo, Nuada.

“Você, Nuada, friamente devolveu a Sreng nove golpes, mas Sreng cortou o seu braço, guerreiro impetuoso, no ombro.

“Você ergueu um alto grito por ajuda, e aquele da Noruega veio. Sreng e Aengaba lutaram com vontade uma batalha bem disputada com armas de guerra.

“Quando Aengaba gritou por ajuda, eu fui rapidamente; quando cheguei, ainda descansado, Sreng recusou um combate contra nós dois.

“Mella, Esec, Ferb, e o ruivo-sangue Faebur caíram perante nós na mesma batalha.

“Os quatro filhos de Gann caíram nas mãos pelas mãos de Goibnenn, o Ferreiro, de Aengaba dos Ataques, de Lucraidh e de Diancecht.

“Bedg e Rinde e Redg, os três filhos de Ordan das artes, foram mortos certamente pelos belos filhos de Cainte.

“Eochaid e seu filho, Slainge o Belo, mataram em batalha um grande número dos heróis das Tuatha Dé.

“Na batalha, a sede tomou o rei Eochaid, e ele não encontrou alívio até que chegou ao córrego de Eothail. 

“Os três filhos de Nemed o cercaram no córrego silencioso, e ali eles lutaram até que todos caíram juntos.

“Lugaid, filho de Nuada, me parece, foi morto por Slainge o Belo; e Slainge, embora tão feroz antes, foi morto lutando contra as Tuatha Dé.

“Brian, Iucharba e Iuchar, os três filhos de Turenn Bigrenn, mataram Esca e Econn e Airbe.

“Após isso, foi Sreng quem dominou a luta – e muitos eram aqueles que mudaram as cores – por três dias, mas nem ele nem nós deixamos o combate.

“Cansados estávamos nós em cada lado, e resolvemos nos separar. Os combates de cada homem, como eu ouvi, eu devo contar exatamente. ”

  1. Tristes e cansados, feridos e cheios de pesadas reprovações estavam os Fir Bolg naquela noite. Cada um enterrou seus parentes e familiares, seus amigos e conhecidos e primos; e então eles ergueram montes sobre os bravos, e lápides sobre os guerreiros e tumbas sobre os soldados, e colinas sobre os heróis. Após isso, Sreng, Semne, e Sithbrug, os filhos de Sengann, convocaram um encontro para conselho e deliberação para os trezentos reunidos. Eles consideravam o que era de seu interesse fazer, se eles deveriam deixar a Irlanda, ou oferecer batalha regular, ou aceitar partilhar a terra com as Tuatha Dé. Eles decidiram oferecer batalha às Tuatha Dé, e Sreng disse:

“Resistencia é destruição para homens; nós resolutamente demos batalha, houve duelo de duras espadas, o forte voo de lanças nos flancos de nobres guerreiros, e a quebra de broquel em escudo; cheias de problemas estão as planícies da Irlanda; desastre nós encontramos sobre suas florestas, a perda de muitos bons homens. ”

  1. Eles pegaram seus fortes escudos recurvos, suas lanças venenosas e suas espadas afiadas com laminas azuis. Assim equipados, eles fizeram um intenso ataque assassino, uma feroz companhia selvagem, com suas lanças firmemente presas no ataque, cortando seu caminho em um fogo flamejante de fúria para enfrentar qualquer infortúnio e qualquer tribulação. Foi então que Sreng desafiou Nuada para combate individual, como eles lutaram na batalha anterior. Nuada o enfrentou bravamente e corajosamente como se ele estivesse ileso, e disse: “Se o combate individual em termos justos é o que busca, amarre sua mão direita, como eu perdi a minha; só então nosso combate será justo. ” “Se você perdeu sua mão, isso não me dá nenhuma obrigação, ” disse Sreng, “pois nosso primeiro combate foi em termos justos. Nós mesmos iniciamos a luta. ” As Tuatha Dé tomaram conselho, e sua decisão, e sua decisão foi oferecer a Sreng sua escolha das províncias da Irlanda, enquanto um acordo de paz, boa vontade, e amizade seria feito entre os dois povos. E assim, eles fizeram a paz, e Sreng escolheu a provincia de Connacht. Os Fir Bolg se reuniram ao seu redor de cada lado, e teimosamente e triunfantemente tomaram a posse da provincia contra as Tuatha Dé. As Tuatha Dé fizeram de Bres seu rei, e ele foi Alto-Rei por sete anos, Ele morreu após tomar uma bebida enquanto caçava em Sliab Gam, e Nuada, sua mão amputada sendo substituída, se tornou rei da Irlanda. E essa é a história da Mag Tured Cunga.

Isso foi escrito na Planície de Eithne, a Filha das Fadas, por Cormac O’Cuirnin para seu companheiro Sean O’Glaimhmn. Dolorosa para nós é sua deserção quando ele nos deixou em uma jornada.

Fonte: Fraser, J. “The First Battle of Moytura.” Ériu v.8 (1915), pp. 1-63 [H 2.17]. Disponível em: <http://www.maryjones.us/ctexts/1maghtured.html&gt;.

Versão em português: Wallace William de Souza para o “Keltia Brasil”, disponível em:< https://sites.google.com/site/brasilkeltia/cultura-celta/a-primeira-batalha-de-moytura-1&gt;.

 

A primeira batalha de Magh Turedh Part 1

A primeira batalha de Magh Turedh
Cét-chath Maige Tuired/
Cath Maighe Tuireadh Cunga/
Cath Maighe Tuireadh Theas

 

 

 

  1. ‘Filhos do poderoso Nemed, qual o motivo de vossa reunião? O que os trouxe aqui – contenda, conflito ou combate?’

 

‘O que nos trouxe de nossas casas, oh sábio Fintán, é isso: nós sofremos nas mãos dos Fomorians da Irlanda pela razão do tamanho do tributo.’

 

‘Qualquer que seja o tributo, ou quem quer ou onde quer que tenha sido imposto, não está em nosso poder arcar com ele ou dele escapar.’

 

‘Há dentre vós um grupo, belicoso embora pequeno em toda a terra, que pode trazer mais ruína do que tributos aos Fomorians.’

 

‘Partam se pensam que essa é a hora certa, gloriosos filhos de Nemed; não sofram desnecessariamente, não fiquem aqui, mas vão para longe.’

  1. ‘É esse o teu conselho para nós, sábio Fintán ?’ ‘É esse,’ disse Fintán, ‘e ainda tenho mais conselhos para vós: não deveis ir por uma rota ou direção, pois uma frota não pode ser reunida sem irromper de uma luta; um grande número significa discussões, estranhos provocam desafios, e uma hoste armada, conflitos. Vocês não acham fácil viver juntos em qualquer ponto da Irlanda, e não seria nem um pouco mais fácil para suas hostes ao buscarem novas casas.’

 

  1. ‘Partam dessa terra, filhos de Nemed; deixem a Irlanda e escapem da violência de seus inimigos.’

 

‘Não fiquem mais aqui, não mais paguem tributos. Seus filhos ou seus netos retomarão a terra de onde agora fogem.’

 

‘Deveis viajar para a terra dos gregos – não é uma falsa história que conto – e embora vocês partam em milhares, sua força não será vista como suficiente no Leste.’

 

‘Os filhos do resoluto Beothach devem deixa-los e ir em direção ao gélido Norte, os filhos de Semeon em direção ao Leste, embora vocês sintam que isso é estranho, partam.’

 

  1. Então eles se separaram, Fintán e os famosos filhos de Nemed. Beothach, filho de Iarnobel, permaneceu, com seus dez homens e suas esposas, na Irlanda, de acordo com o poeta:

 

Filho de Iarnobel, Beothach dos julgamentos claramente ditos, permaneceu na Irlanda. Seus filhos foram para o leste, para o noroeste de Lochlann.

 

  1. Assombrosa é a ignorância mostrada por aqueles que pensam que Tait, filho de Tabarn, era o único rei sobre os filhos de Nemed, pois ele ainda não era nascido. Ele nasceu no Leste, e nunca veio para a Irlanda.

 

  1. Imensa era a frota, ávida a reunião, considerando quão poucos aportaram da grande companhia que deixou a Irlanda, pois apenas trinta homens escaparam na tomada da Torre de Conaing, e desses, um terço permaneceu com Beothach na Irlanda. Os vinte restantes se multiplicaram grandemente, pois o número de navios que agora deixava a Irlanda era de dez mil cento e quarenta.

 

Aqueles amigos queridos, então, separados, tristes e pesarosos, eram o pequeno resto que permaneceu na Irlanda…

 

  1. (…) os mistérios da magia, o conhecimento, o aprendizado, e dons proféticos, o domínio das armas e feitos astuciosos, as viagens e andanças dos filhos de Ibath, pois aconteceu de, naquelas histórias, que todos partiram de um lugar vir a ser dito. Uma narrativa diferente é necessária para cada raça. Comovendo os filhos de Semeon, filho de Starn. Uma tempestade os tirou de seu curso, até que eles chegaram às terras secas da Trácia às arenosas praias da Grécia, e ali eles aportaram. Então os habitantes e campeões da terra os visitaram, e fizeram um acordo de paz e concordaram com eles. Território lhes foi dado, mas na praia, nas fronteiras distantes, em gélidos trechos ríspidos e de rochas acidentadas, nos lados das colinas e encostas das montanhas, em cumes inóspitos e ravinas profundas, em terra alquebrada e território inapropriado para o cultivo. Mas os estranhos levaram uma grande quantidade de solo para as lisas pedras nuas e as transformaram em sorridentes planícies cobertas de trevos.

 

  1. Quando os chefes e homens poderosos da terra viam os lisos, amplos e verdes campos, e as grandes extensões de terra frutiferamente cultivada, eles expulsariam os ocupantes, e lhes davam em troca rudes regiões selvagens, duras terras pedregosas com serpentes venenosas. De qualquer modo, eles domesticavam e cultivavam o solo, e os transformavam em bons campos frutíferos, belos e amplos como todas as terras que lhes eram tomadas.

 

  1. Mas enquanto isso, os filhos de Nemed aumentaram e se multiplicaram até que eles contavam muitos milhares. O tributo ficou mais pesado e seu trabalho mais duro, até que eles, agora uma poderosa companhia, resolveram secretamente fazer grandes barcos curvos das bem tecidas trouxas que eles usaram para levar o solo, e navegar para a Irlanda.

 

  1. Duzentos anos tinham se passado desde a tomada da Torre de Conaing até o retorno dos filhos de Semeon à Irlanda. Foi na mesma época que os famosos filhos guerreiros de Israel estavam deixando o Egito em busca da feliz terra prometida, enquanto os filhos de Gaidel Glas se moviam do sul após a fuga do povo de Deus e o afogamento do Faraó, e chegavam à rude e gélida Cítia.

 

  1. Durante os duzentos anos após a tomada da Torre de Conaing, os filhos de Semeon se multiplicaram até que somavam muitos milhares, formando fortes hostes corajosas. Por conta da severidade do trabalho e o peso da servidão impostas, eles decidiram fugir da perseguição, se esforçar para escapar e seguir seu caminho para a Irlanda.

 

  1. Eles fizeram barcos de suas trouxas, e roubaram alguns barcos, botes e galeras dos soldados dos gregos. Os lordes e líderes, cabeças, chefes e campeões daquela frota eram os cinco filhos de Dela, de acordo com o poeta:

 

Para a nobre Irlanda assim partiram os cinco filhos de Dela filho de Loth, o impetuoso, Rudraige, Genann, Gann, Slainge das lanças, e Sengann.

 

  1. Eles o fizeram no anoitecer, e guiaram seus navios no porto onde eles haviam aportado. Slainge, o mais velho da companhia, que era o juiz entre seus irmãos, arengou com eles como segue:

 

‘Agora é a hora do esforço, cuidado e atenção; feroz e cinzento com a espuma é o mar; cada bela frota parte para escapar do intoleravelmente errado; à tirania dos gregos não estamos acostumados; as planícies da Irlanda portadora dos salmões temos de lutar para conquistar. 

 

‘Prestem a atenção e vejam a injustiça e erro que sofrem. Vocês têm em nós cinco bons homens para liderar a frota, cada um de nós páreo para uma centena.’

 

‘Isso é verdade,’ seus seguidores responderam, ‘Vamos fazer o povo dessa terra pagar toda a servidão e os pesados tributos que eles impuseram a nós.’ Então eles mataram cada um dos gregos dignos de matar que eles pegaram, e devastaram as terras vizinhas, e nelas fizeram uma incursão destruidora e as queimaram. Então eles trouxeram seu saque e espólio para o lugar onde seus navios e galeras estavam e os belos barcos de proas negras que eles haviam feito de suas trouxas e sacos, isso é, para Traig Tresgad.

 

  1. Mil cento e trinta era o número de navios que partiram, de acordo com o poeta:

 

‘Mil cento e trinta navios – Esse, sem falsidade, é o número que acompanhou Genann e seu povo do Leste.

 

Numerosos, sem dúvida, eram os Fir Boig quando eles deixaram a Grécia, uma forte companhia que partiu vigorosamente em sua viagem, mas não em uma frota construída de madeira.

 

Na Quarta-feira eles partiram para o Oeste sobre o grande mar Tirreno, e após um ano inteiro e três dias eles chegaram à Espanha.

 

De lá para a nobre Irlanda eles fizeram uma rápida viagem; todos podem proclamar isso, eles tomaram um período de treze dias.’

 

  1. Então eles chegaram à Espanha. Eles perguntaram aos seus videntes e druidas por informação e direção sobre os ventos que seriam os próximos a leva-los para a Irlanda. Eles navegaram adiante em um vento sudoeste até que viram a Irlanda à distancia. Mas nesse ponto o vento se ergueu alto e forte, e sua violência levou enormes ondas contra os lados dos barcos; e a frota se separou em três grandes divisões, os Gaileoin, os Fir Boig e os Fir Domnann. Slainge levou à costa de Inber Slainge um quinto dos Gaileoin; Rudraige aportou em Tracht Rudraige em Ulster; e Genann em Inber Domnann. O vento esfriou, e a tempestade levou Gann e Sengann até que eles aportarem em Inber Douglas, onde Corcamruad e Corcabaisginn se encontraram.

 

  1. Ali eles aportaram e esse é o primeiro lugar onde ovelhas foram trazidas à Irlanda, e Morro das Ovelhas é seu nome.

 

Foi no Sábado, no primeiro dia de agosto, que Slainge aportou em Inber Slainge; Gann e Genann aportaram em Inber Domnann na Sexta-feira, e Rudraige e Senngan em Tracht Rudraige na Terça-feira. Os últimos estavam ansiosos sobre se os Fir Boig haviam ou não alcançado a Irlanda ou não, e mandaram mensageiros por toda a Irlanda para reunir todos aqueles que haviam chegado à Irlanda em um lugar, isso é, a Fortaleza dos Reis de Tara. Todos eles lá se reuniram. ‘Nós agradecemos aos deuses’, disseram eles, ‘por nosso retorno a ti, Irlanda. Que o país seja dividido igualmente entre nós. Tragam aqui o sábio Fintán, e que a Irlanda seja dividida de acordo com sua decisão.’

 

  1. Foi então que Fintán fez cinco porções da Irlanda. De Inber Colptha a Comar Tri nUisce foi dada a Slainge, filho de Dela, e seus mil homens. A porção de Gann era de Comar Tri nUisce a Belach Conglais, a de Sengann de Belach Conglais a Limerick. Gann e Sengann tinham, assim, os dois Munsters. Genann foi posto sobre Connacht, e Rudraige sobre Ulster. O poeta assim descreve a divisão:

 

‘No Sábado, um augúrio de prosperidade, Slainge alcançou a nobre Irlanda; sua corajosa carreira começou em Inber Slainge.

 

Na sombria Inber Douglas os dois navios de Gann e Sengann tocaram a gloriosa terra.

Rudraige e o próspero Genann aportaram na Sexta-feira. Esses eram todos eles, e eles eram os cinco reis.

De Inber Colptha a Comar Tri nUisce Fintán fez uma divisão; essa era a porção de Slainge das lanças. Sua hoste era de mil homens.

 

De Comar Tri nUisce à famosa Belach Conglais era o quinto do curandeiro Gann. Ele tinha uma companhia de mil homens.

 

Para Sengann, pensamos, foi dado de Belach a Limerick. Ele era o chefe de mil homens quando o conflito ameaçou.

 

Genann era o rei absoluto de Connacht ao Maigue. O heroico Rudraige era rei de Ulster, seus eram dois mil homens na hora da batalha.

 

Rudraige e Sengann das lanças eram, isso é certo, os chefes dos Fir Boig. Os Gaileon seguiam glorioso Slainge. Um bom rei era ele que tinha uma hoste mais numerosa. Eles entraram na Irlanda pelo Sul, como Deus achou apropriado.

 

  1. As esposas desses cinco chefes eram Auaist, Liben, Cnucha, Edar, e Fuat, como o poeta diz:

 

‘Fuat era a esposa de Slainge como vocês sabem, Edar do guerreiro Gann, Auaist de Sengann das lanças, Cnucha do belo Genann.

 

Liben era a esposa de Rudraige o Vermelho – eles faziam uma agradável companhia em visita. De qualquer modo, quanto a Rudraige, o rei dos feitos realizados, eu ouvi que sua esposa era Fuat.’

 

  1. Os Firbolg ocuparam a Irlanda e foram mestres dela por trinta anos.

 

  1. Quanto às Tuatha De Danann, eles prosperaram até que sua fama se espalhou sobre as terras do mundo. Eles tinham um deus da magia seu, Eochaid Ollathir, chamado o Grande Dagda, pois ele era um excelente deus. Eles tinham bravos e duros chefes, e homens proficientes em cada arte; e eles decidiram ir para a Irlanda. Então partiram daqueles audaciosos chefes, representando a perícia militar do mundo, e a habilidade e aprendizado da Europa. Eles vieram das ilhas do Norte a Dobur e Indobur, a S(…) e ao poço de Genann. Ali eles permaneceram por quatro anos, e na sua chegada à Irlanda, Nuada, filho de Echtach, era rei sobre eles.

 

Então esses guerreiros reuniram suas frotas em um lugar até que eles tinham trezentos navios ali. Então, seus profetas, Cairbre, Aed, e Edan perguntaram aos chefes da hoste em qual navio eles navegariam, recomendando o de Fiachra. Os chefes aprovaram e foram a bordo. Então eles partiram, e após três anos e três dias e três noites, aportaram na ampla Tracht Mugha em Ulster, na Segunda-feira da primeira semana de Maio.

 

Agora sobre a chegada das Tuatha De Danann na Irlanda, uma visão foi revelada em um sonho a Eochaid, filho de Erc, alto rei da Irlanda. Ele ponderou sobre ela com muita ansiedade, estando cheio de surpresa e perplexidade. Ele disse ao seu mago, Cesard, que ele havia visto uma visão. ‘O que era a visão?’ Perguntou Cesard. ‘Eu vi um grande bando de pássaros negros,’ disse o rei, ‘vindo das profundezas do Oceano. Eles pousavam sobre nós, e lutavam com o povo da Irlanda. Eles traziam confusão sobre nós, e nos destruíam. Um de nós, eu penso, atingia o mais nobre dos pássaros e cortava uma de suas asas. E agora, Cesard, utilize sua habilidade e conhecimento, e nos diga o significado da visão.’ Cesard o fez, e por meios de rituais e uso de sua ciência o significado da visão do rei lhe foi revelada; e ele disse.

 

‘Eu tenho pressentimentos para você: guerreiros estão vindo através do mar, mil heróis cobrindo o oceano; navios pintados se baterão sobre nós; todos os tipos de morte eles anunciam, uma pessoa versada em cada arte, um feitiço mágico; um espírito maligno virá sobre você, sinais para você se perder (?); … eles serão vitoriosos em cada embate.’

 

  1. ‘Essa,’ disse Eochaid, ‘ é a profecia da vinda à Irlanda de inimigos de países distantes.’

 

  1. Quanto às Tuatha De Danann, eles todos chegaram à Irlanda, e imediatamente destruíram e queimaram todos os seus navios e barcos. Então eles partiram para as Colinas Vermelhas de Rian em Brefne, no Leste de Connacht, onde eles pararam e acamparam. E finalmente seus corações e mentes estavam cheios com o contentamento de que eles tinham alcançado a terra de seus ancestrais.

 

  1. Então foi reportado aos Fir Boig que aquela companhia tinha chegado à Irlanda. Que era a mais impressionante e deleitosa companhia, os mais belos de forma, os mais distintos em equipamentos e aparatos, e em sua habilidade na música e instrumentos, os mais dotados em mente e temperamento que já tinham vindo à Irlanda. Essa era também a companhia mais corajosa e que inspirava mais horror e medo e pavor, pois as Tuatha De excediam a todos os povos do mundo em sua proficiência em todas as artes.

 

  1. ‘Isso é uma grande desvantagem para nós,’ disseram os Fir Boig, ‘ que não temos nenhum conhecimento ou registro de onde tal hoste viera, ou onde eles pensam em se fixar. Que Sreng parta para visita-los, pois ele é grande e feroz, e corajoso para espiar hostes e interrogar estranhos, e rude e aterrorizante de observar.’ Então Sreng se levantou e pegou seu forte escudo curvo marrom-avermelhado, seus dois dardos de hastes ríspidas, sua espada causadora de mortes, seu belo elmo de quatro lados, e sua pesada clava de ferro, e tomou seu caminho para a Colina da Chuva.

 

As Tuatha De viram um enorme homem terrível se aproximando deles. ‘Ali vem um homem totalmente sozinho,’ disseram eles. ‘É por informação que ele vem. Vamos mandar alguém para falar com ele.’

 

Então Bres, filho de Elatha, saiu do acampamento para inspeciona-lo. Ele carregava consigo seu escudo e sua espada, e suas duas grandes lanças. Os dois homens se aproximaram um do outro até que estavam à distância de fala. Cada um olhou atentamente para o outro, sem dizer uma palavra. Cada um estava impressionado com as armas e a aparência do outro; Sreng se impressionou com as grandes lanças que ele via, e apoiou seu escudo no chão à sua frente para que protegesse seu rosto. Bres, também, manteve o silêncio, e segurou seu escudo à sua frente. Então, eles cumprimentaram um ao outro, pois falavam a mesma língua – a origem sendo a mesma – e explicaram um ao outro, como se segue, quem eram eles e seus ancestrais.

 

‘Minha carne e minha língua foram felicitados por sua agradável e bela linguagem, quando você recontou as genealogias de Nemed em diante.’

 

‘Por origem, nossos povos são como irmãos; nossa raça e povo descende de Semeon.’

 

‘Essa é a hora correta para ter isso em mente, se nós somos, em carne e sangue, a mesma distinta raça que vós.’

 

‘Abaixe seu orgulho, que sua coragem escureça, esteja consciente de seu parentesco, evite a destruição de seus próprios homens.’

 

‘Altivo é nosso temperamento, nobre nosso orgulho e ferocidade contra nossos inimigos; você não irá abate-los.’

 

‘Nossos dois povos se encontrarão, será uma reunião onde muitos serão esmagados; que ele traga entretenimento.’ ‘Não será ele a nos distrair.’

 

  1. ‘Remova seu escudo da frente de seu corpo e rosto,’ disse Bres, ‘para que eu possa dar à Tuatha De um relato de sua aparência.’ ‘Eu o farei,’ disse Sreng, ‘ pois foi por medo da lança afiada que carrega que coloquei meu escudo entre nós.’ Então ele ergueu seu escudo. ‘Estranhas e venenosas,’ disse Bres, ‘são essas lanças, se as armas de todos vocês são semelhantes a essa. Mostre-me suas armas.’ ‘Eu irei,’ disse Sreng; e então ele desamarrou e descobriu seus dardos de ríspidas hastes. ‘O que você pensa dessas armas?’ Ele disse. ‘Eu vejo,’ disse Bres, ‘enormes armas, de pontas amplas, firmes e pesadas, poderosas e afiadas.’ ‘Triste para ele que elas devam destruir, triste para ele que elas devam voar, contra quem elas devem ser lançadas; elas serão instrumentos de opressão. Morte há em seus poderosos golpes, destruição em apenas um movimento deles; feridas são seus duros movimentos; esmagamento é o horror delas.’

 

  1. ‘Como vocês os chamam?’ Disse Bres. ‘Dardos de batalha são eles,’ disse Sreng. ‘Eles são boas armas,’ disse Bres, ‘corpos feridos eles significam, sangue jorrando, ossos quebrados e escudos estilhaçados, cicatrizes certas e verdadeira praga. Morte e mancha eterna eles trazem, afiadas, inamistosas e mortais são suas armas, e há fúria por fratricídio nos corações das hostes de cujas armas eles são. Vamos fazer um pacto e um acordo.’ Eles o fizeram. Cada um se aproximou do outro, e Bres perguntou: ‘Onde você passou a última noite, Sreng?’ ‘No abençoado coração da Irlanda, na Fortaleza dos Reis em Tara, onde estão os reis e príncipes dos Fir Boig, e Eochaid, Ard Righ da Irlanda. E tu? De onde vieste?’ ‘Da colina, do apinhado campo ali, na costa da montanha, onde estão as Tuatha De e Nuada, seu rei, que vieram do norte do mundo, em uma nuvem de bruma e uma chuva mágica para a Irlanda e a terra do Oeste.’ (De qualquer modo, ele não acreditou que fora assim que eles vieram). Foi então que Sreng disse: ‘Eu tenho uma longa jornada e é a hora que tenho de ir.’ ‘ Vá então,’ disse Bres, ‘e aqui há uma das duas lanças que eu trouxe comigo. Pegue-a como um exemplo das armas das Tuatha Dé.’ Sreng deu um de seus dardos para Bres, como um exemplo das armas dos Fir Boig. ‘Diga aos Fir Boig,’ disse Bres, ‘ que eles podem dar ao meu povo ou batalha ou metade da Irlanda.’ ‘Por minha palavra,’ disse Sreng, ‘ eu preferia lhes dar metade da Irlanda a enfrentar essas armas.’ Eles partiram em paz após fazerem um acordo de amizade um com o outro.

 

  1. Sreng pegou seu caminho para Tara. Ele foi perguntado por impressões do povo com o qual ele tinha ido falar; e ele contou sua história: ‘Bravos são seus soldados,’ ele disse, ‘viris e habilidosos são seus homens, sangrentos e certos de batalha são seus heróis, grandiosos e fortes seus escudos, muito afiadas e de duras hastes são suas lanças, e rígidas e largas são suas espadas. Difícil é lutar com eles; ‘é melhor fazer uma clara divisão da terra, e lhes dar metade da Irlanda, como eles desejam.’ ‘Não daremos isso, sem dúvida,’ disseram os Fir Boig, ‘pois se o fizermos, a terra será toda deles.’

 

  1. Bres alcançou seu acampamento, e foi perguntado por uma descrição do homem com o qual ele havia falado, e de suas armas. ‘Um homem grande, poderoso, feroz,’ ele disse, ‘ com armas vastas e surpreendentes, com uma vontade firme e truculenta, sem reverência ou medo por nenhum homem.’ As Tuatha Dé Danann disseram uns aos outros, ‘Não vamos ficar aqui, mas ir para o Oeste da Irlanda, para algum lugar fortificado, e lá enfrentaremos quem quer que seja.’ Então a hoste viajou para Oeste, pelas planícies e enseadas, até que chegou a Mag Nia, e ao fim da Colina Negra, que é chamada Sliabh Belgadain. Na sua chegada, eles disseram: ‘Esse é um excelente local, forte e impenetrável. Daqui nós lutaremos nossas guerras, e faremos nossos ataques, aqui vamos criar nossas batalhas e hostes.’ O acampamento é citado pelo poeta nessas linhas:

 

‘Da Colina de Belgadain à Montanha – lisa é a montanha ao redor do qual nos engajamos em nossas contendas. Do seu cume, as Tuatha De tomaram a Irlanda.’

 

  1. Foi então que Macha e Badb e Morrighan foram à Colina da Tomada dos Reféns e à Colina da Invocação das Hostes em Tara, e lançaram chuvas de feitiçaria e nuvens compactas de névoa e uma furiosa chuva de fogo, com um despejo de sangue vermelho sobre as cabeças dos guerreiros; e elas não permitiram aos Fir Boig nem descanso nem paz por três dias e três noites. ‘Pobre,’ disseram os Fir Boig, ‘é a feitiçaria dos nossos feiticeiros, que não pode nos proteger da feitiçaria das Tuatha Dé.’ ‘Mas nós protegeremos vocês,’ disseram Fathach, Gnathach, Ingnathach, e Cesard, os feiticeiros dos Fir Bolg, e eles pararam a feitiçaria das Tuatha Dé.

 

  1. Então os Fir Bolg se reuniram, e seus exércitos e hostes foram a um lugar de encontro. Ali se encontraram os reis provinciais da Irlanda. Primeiro vieram Sreng e Semne e Sithbrugh, os três filhos de Sengann, com o povo das províncias de Curói. Também foram Esca, Econn, e Cirb, com as hostes das províncias de Conchobar; os quatro filhos de Gann com as hostes das províncias de Eochaid filho de Luchta; os quatro filhos de Slainge com o exército da província de Gaileoin; e Eochaid, o Alto-Rei, com as hostes de Connacht. Os Fir Bolg, contando onze batalhões, então marcharam para a entrada de Mag Nia. As Tuatha Dé, com sete batalhões, tomaram sua posição na extremidade oeste da planície. Foi então que Nuada propôs às Tuatha De mandar enviados aos Fir Bolg: ‘Eles precisam ceder metade da Irlanda, e nós dividiremos a terra entre nós.’ ‘Quem serão nossos enviados?’

O povo perguntou. ‘Nossos poetas,’ disse o rei, nomeando Cairbre, Ai e Edan.

 

  1. Então eles partiram e chegaram à tenda de Eochaid, o Alto-Rei. Depois que eles haviam sido presenteados com dádivas, eles foram perguntados pela razão de sua vinda. ‘Isso é porque viemos,’ eles disseram, ‘ para pedir a divisão da terra entre nós, uma divisão igual da Irlanda.’ 

 

‘Os nobres dos Fir Bolg ouviram isso?’, disse Eochaid. ‘Nós ouvimos,’ eles responderam, ‘ mas não concederemos o seu pedido até o final do mundo.’ ‘Então,’ disseram os poetas, ‘quando vocês pensam em batalhar?’ ‘Alguma espera é pedida,’ disseram nos nobres Fir Bolg, ‘ pois nós temos que preparar nossas lanças, consertar nossas armaduras, moldar nossos elmos, afiar nossas espadas, e preparar vestimentas adequadas.’ Foram trazidos a eles homens para arranjar essas coisas. ‘Preparem,’ disseram eles, ‘escudos para uma décima, espadas para uma quinta, e lanças para uma terça parte. Vocês precisam ter cada utensilio que possamos pedir em qualquer lado.’ ‘Nós,’ disseram os enviados das Tuatha Dé aos Fir Bolg, ‘devemos fazer suas lanças, e vocês precisam fazer nossos dardos.’ As Tuatha Dé então receberam hospitalidade até que tudo estava feito. (De qualquer modo, embora tenha sido dito aqui que os Fir Bolg não tinham lanças, essas tinham sido feitas por Rindal, avô do então rei). Então eles providenciaram um armistício até que as armas chegassem, até que o equipamento estivesse pronto, e eles estivessem preparados para a batalha.

 

  1. Os druidas voltaram às Tuatha Dé e contaram sua história do começo ao fim, como os Fir Bolg não partilhariam a terra com eles, e lhes recusaram favores ou amizade. As notícias encheram as Tuatha Dé com consternação.

 

  1. Então Ruad com vinte e sete filhos do corajoso Mil correram à oeste para a extremidade de Mag Nia para oferecer uma competição de arremesso às Tuatha Dé. Um número igual veio para enfrenta-los. O desafio começou. Eles deram muitos golpes em pernas e braços, até que seus ossos se quebraram e feriram, e caíram estendidos na turfa, e o desafio terminou. O Cairn do Desafio é o nome do cairn onde eles se enfrentaram, e Glen Came Aillem o lugar onde eles foram enterrados.

 

  1. Ruad se voltou para o leste, e contou sua história para Eochaid. O rei estava feliz pela morte dos jovens soldados das Tuatha Dé, e disse para Fathach, “Vá para o oeste, e pergunte aos nobres das Tuatha De como a batalha deve ser lutada amanhã – se é para ser por um dia ou por muitos. ” O poeta foi e pôs a questão para os nobres das Tuatha De, isso é, Nuada, o Dagda, e Bres. “O que nós propomos, ” eles disseram, “é combatermos com números iguais em ambos os lados. ” Fathach voltou e reportou aos Fir Bolg a escolha das Tuatha De. Os Fir Bolg estavam deprimidos, pois eles não gostaram da escolha das Tuatha De. Eles decidiram chamar por Fintan para ver se ele poderia lhes dar algum conselho. E Fintán veio a eles.

 

 

Fonte: Fraser, J. “The First Battle of Moytura.” Ériu v.8 (1915), pp. 1-63 [H 2.17]. Disponível em: <http://www.maryjones.us/ctexts/1maghtured.html&gt;.

Versão em português: Wallace William de Souza para o “Keltia Brasil”, disponível em:< https://sites.google.com/site/brasilkeltia/cultura-celta/a-primeira-batalha-de-moytura-1&gt;.

Sobre o que são Clãs

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Clãs é um grupo de pessoas unidas devido a um determinado grau de parentesco e linhagem, definido pela descendência de um ancestral comum. O parentesco baseado em laços pode ser de natureza meramente simbólica, alguns clãs compartilham um ancestral comum “estipulado”, o qual é um símbolo da unidade do clã, e quando esse ancestral não é humano, é um totem animal.

A ligação entre os membros de um clã está associada com a terra, não necessariamente com o sangue, se uma família ou grupo de famílias vive nas terras do clã mas não são aparentados com o chefe, podem declarar fidelidade ao chefe tornando-se, assim, membros do clã.

A relação entre o seu Lider e os seus membros do clã é de lealdade recíproca, sendo esperado de ambos que deem as suas vidas se for necessário, o chefe para proteger os seus homens e os seus homens para protegerem o chefe.

Os membros do clã tinham o direito de possuir terras e de permanecer nas terras do clã onde o chefe ou os chefes providenciavam proteção. Este conceito, conhecido como duthchas (em galês cynefin), é parte da herança e autoridade do clã. Esta era a principal noção acerca da ligação entre os membros do clã até à Idade Média.

 

Os clãs podem ser considerados como unidades políticas, sociais e militares, dentro de uma sociedade mais alargada. Nem todos os clãs têm estas três características, contudo. Em sociedades tribais é natural encontrarem-se todas elas nos clãs, enquanto que, em sociedades desenvolvidas os clãs são apenas associações de família, significando isto que perderam o estatuto político e militar ao longo dos anos.

 

Os clãs funcionam como uma espécie de tribo, e geralmente possui mais de 7000 pessoas, como membros. Alguns clãs podem ser compostos apenas por homens, outros só por mulheres, e outros independente do sexo.

 

Os clãs são chamados de patrilineares, matrilineares e bilateral. Patrilineares é quando os membros são apenas homens, matrilineares é quando são apenas mulheres e bilateral depende das regras e normas de parentesco

A palavra clã vem das formas gaélicas clann, “descendência” ou “família”, tanto em gaélico irlandês como escocês, e clanna, “crianças” A palavra foi trazida para o inglês à volta de 1425 como etiqueta para a natureza tribal das sociedades gaélicas irlandesa e escocesa. O termo gaélico para ‘clã’ é fine (soa como ‘fin’).